Retrospectivas são necessárias. Mesmo que a gente saiba, lá no fundo, que nada vai mudar entre 31 de dezembro e 1º a janeiro, vale a intenção de repensar a vida, dar um gás nos projetos, prometer coisas a si mesmo, rever conceitos. Para o ano de 2011 uma retrospectiva vem bem a calhar porque, cá entre nós, foi um ano esquisito à beça. Para quem ama tecnologia e todas as suas vertentes (ou tentáculos), foi um ano para lá de maluco – empresas dando errado, outras dando muito certo; ídolos se despedindo, outros tropeçando; uma guerra enlouquecida por parte da indústria para lançar novas versões de objetos que já tinham dado errado antes (como os tablets); o mundo sem entender direito qual é a da cloud computing, se dá para confiar e em quem; a Apple enfim lembrando que o Brasil existe; operadoras emperrando a chegada de novas frequências para a nossa telefonia, o que inviabiliza o 4G… é tanta coisa que merece ser citada que é melhor ir por partes. Com certeza vai faltar troço à beça, mas nada que uma continuação do papo não resolva.
Para começo de conversa, como estamos vivendo na Terra e não em Marte, vale lembrar que o ano de 2011 começou duro pacas: tragédia das chuvas na Região Serrana do Rio de Janeiro; aquele terremoto hollywoodiano com consequente tsunami no Japão; economias americana e europeia em crise; uma mulher presidente do Brasil; morte de Kadafi na Líbia; Obama despencando; o fim ao cerco a Osama Bin Laden; massacre de estudantes na Noruega; ministros caindo em efeito dominó; promessas e promessas da Ciência e Tecnologia no país (fábrica da Apple a plenos vapores, por exemplo); a explosão e os últimos suspiros do site Wikileaks e os problemas com a justiça de seu criador, Julian Assange; revoltas no mundo árabe…
A respeito deste tema em especial, cabe uma avaliação de como o ano de 2011 comprovou que é possível reunir, através da internet, o que há de pior e o que há de melhor na Humanidade, às vezes misturando-se os conceitos. No Egito, manifestações foram convocadas via Twitter e outras redes sociais – e tais movimentos ajudaram a derrubar nada menos que 30 anos de regime de ditadura de Hosni Mubarak; revolta popular na Líbia, com apoio dos internautas cada vez mais consistente; enquanto isso, em Londres, as redes sociais também serviram para unir pessoas em torno de uma causa, que o mundo considerou, vamos lá, “dúbia”. E no Brasil, cresce o alcance social das redes, mas os usuários ainda não descobriram uma forma de explorar tão valiosa arma na luta contra os desmandos. Afinal, Sarney continua lá…
Já no finalzinho do ano, uma notícia que, para mim, merece ser analisada com mais vagar – o lançamento da versão brasileira da iTunes Store é um sinal de que nem tudo vai bem para os gênios que programam o futuro. Explico: enquanto nos países mais desenvolvidos a conexão à internet já chega a viajar em gigabits de velocidade, no Brasil a velocidade continua baixa, com alguns pequenos sinais pintando aqui e ali – e ainda se vende 3G como “banda larga”. Nos Estados Unidos e em alguns da Europa, mais do que download o momento é do streaming. Explico: se sua conexão é decente e não “engasga”, faz muito mais sentido assistir online aos seus filmes preferidos, em alta definição, do que baixar arquivos monstruosos e ocupar HDs externos ou pen drives “parrudos”.
O ano de 2011 foi aquele que sinalizou para o Brasil que o momento do streaming pode estar chegando. Mas ainda mal conseguimos fazer downloads decentes, quanto mais segurar conexões fortonas por duas horas que seja, sem gargalos incômodos. A chegada da Netflix pode ser considerada um marco, mas se ela já está dando sinais de “S.O.S.” lá fora, será que aqui vai vingar?
E de que adianta ter um tablet – fenômeno inconteste do ano – se não há uma conexão decente? Chips 3G têm se mostrado a solução, uma vez que a quantidade de hot spots espalhados por aí ainda não dá conta do recado. Mas ainda não é para comemorar – é bem desconfortável a posição do Brasil no ranking de países com maior avanço no uso das tecnologias para acesso à sociedade da informação. O primeiro lugar é da Coreia, seguida por Suécia, Islândia, Dinamarca e Finlândia. Nós aparecemos em 64º lugar na lista, perdendo da Bósnia-Herzegovina (63º) e ganhando da Venezuela (65º).
Nem tudo, no entanto, é má notícia neste mercado: cresceu, por exemplo, a quantidade de pessoas usando smartphones para acesso à rede mundial em movimento. O que acaba impactando fortemente o segmento das lan houses – a Revista “Veja” publicou matéria na qual apresenta pesquisa própria sobre o assunto. Disse a pesquisa, realizada pelo Departamento de Pesquisa e Inteligência de Mercado da Editora Abril, que apenas 10% dos entrevistados na chamada nova classe média (a outrora Classe C) frequentam esse tipo de estabelecimento. Os demais (90%) usam smartphones e/ou computadores do trabalho.
Uma pesquisa divulgada pela Federação do Comércio do Estado do Rio de Janeiro (Fecomércio) em novembro também veio trazer alívio: de acordo com o estudo, encomendado à empresa de pesquisa de mercado Ipsos, o acesso à internet no país dobrou nos últimos quatro anos. O estudo, realizado em 70 cidades, incluindo nove regiões metropolitanas, apontou que, de 2007 para 2011, o percentual de conectados passou de 27% para 48%.
O acesso móvel não é apontado como responsável direto pelo crescimento, mas há de se considerar que o uso de smartphones, modems e chips 3G, assim como o incremento na concorrência da banda larga fixa, têm se mostrado grandes agentes de impulso para a conexão dos brasileiros à internet. O estudo mostra ainda que na medida em que o acesso doméstico e móvel cresce, as lan houses perdem público – elas tiveram a queda mais acentuada. Em outubro de 2007, quando a pesquisa foi realizada pela primeira vez, 39% dos entrevistados responderam que navegavam na internet usando tais estabelecimentos. Agora, a porcentagem é de apenas 15%.
Mudando da água para o vinho, seria chover no molhado afirmar que o fato do ano foi a morte de Steve Jobs. Mais ainda quando complementada pela biografia autorizada (a primeira) “Steve Jobs”, de Walter Isaacson (Companhia das Letras). O que teve de maldito, Steve teve de genial. Um crápula e um gênio, tudo tão ambíguo que, no final das contas, não dá para afirmar se ele desperta mais amor ou ódio. Mas que é impossível passar incólume, ah isso é…
Jobs faleceu em um ano muito importante para a Apple. Lutando contra um oponente cada vez mais forte e com um exército cada vez maior (Google, claro, o único que Jobs realmente temia), a empresa está tendo que rever conceitos, estratégias e táticas. Anunciou, por exemplo, uma plataforma para a venda de anúncios dentro de aplicativos móveis para iPhone, iPad e iPod, batizada de iAds, o que julgava inconcebível até pouco tempo. E ainda veio agora com essa de levar a iTunes Store a locais nos quais até então nem pensava em atuar. No caso do Brasil, a pinimba da Apple é com o Ministério da Justiça – eles não se acertam quanto à classificação etária dos games e, assim, continuamos sem. A não ser, é claro, que usemos uma conta fantasma “gringa”.
O ano de 2011 foi bendito para o mercado de TVs 3D. Na CES deste ano, elas foram a sensação (ainda mais quando apresentados os novos óculos acessórios, mais leves), acompanhadas dos tablets, os produtos do ano. O iPad 2 surpreendeu ao aparecer mais fino e com duas câmeras; mas o Samsung Galaxy Tab incomodou e continua incomodando, Mas, cá entre nós, a Amazon tem corrido bonito por fora e ano que vem a briga de versões novas do Kindle com o iPad pode ser boa, assim como a chegada dos ultrabooks (falaremos mais adiante).
E, sim, o iPhone 5 não rolou: a (decepcionante) estreia de Tim Cook nas demonstrações de gala da Apple foi para apresentar o iPhone 4S, com design idêntico ao do irmão 4, só que dotado de processador mais rápido, bateria mais longeva e o sensacional software de comando e reconhecimento de voz Siri, uma inovação realmente incrível que deve ser encarada como um divisor de águas.
Outra notícia que vai balançar o ano que vem por aí: o Chrome OS já chegou em notebooks e este ano pode incomodar, e não é pouco, a combalida Microsoft, que tem apostado suas fichas na parceria com a Nokia. A ideia é manter o controle do mercado de celulares de entrada – os chamados low end. O casório Microsoft/ Nokia só não foi notícia mais poderosa, aliás, que a união entre Google e Motorola, que em 2012 deve render frutos interessantes. Enquanto isso, a Apple lançou o Mac OS Lion (nova versão do OS X).
Quanto às redes sociais, Mark Z. apresentou um novo layout do Facebook – na verdade, um novo conceito, dotado da função timeline, que torna a rede um grande apanhado de blog + álbum de fotos + e-mail + compartilhamento de vida, além de números assombrosos: já são mais de 800 milhões de usuários. E nem o lançamento do Google + (Plus) parece incomodar tanto assim, pelo menos enquanto a turma do jovem bilionário continuar lançando novidades como o streaming compartilhado de música (você ouve junto com seus amigos, ao mesmo tempo); ferramentas de comércio social, um achado para o mercado corporativo; vídeo em tempo real… tanta coisa inundará nossos cantinhos em 2012 que é bom aproveitar o fim de ano para colocar as novidades em dia. Pelo menos ficar por dentro, porque o que não falta é susto pra gente tomar.
E, sim: ainda dá tempo de falarmos mais sobre o que “bombou” e o que vai “bombar” no ano que vem por aí.
|
|
Redes sociais
Comentário (1)
Phiron
A banda Larga no Brasil ainda tem muito o que melhorar, a situação é às vezes ridícula, como por exemplo, na minha cidade Montes Claros, com quase 400.000 habitantes e a maior cidade do norte de minas, pagamos valores altíssimos pela internet, R$100,00 por acessos na casa de 1Mb/s.
No entanto, apesar da internet no país estar muito ruim, não acho justa as comparações com esses países europeus ou com a coréia, o nosso país é enorme e temos áreas de baixa renda, que caso as empresas invistam pesadamente em acesso de internet, o retorno será baixo.
A nossa cultura assistencialista é ruim às vezes porque queremos que o governo banque tudo, é claro que ele tem condições de fazer ao menos o dobro do que é feito porque a corrupção é muito grande, no entanto lembremos que os serviços provenientes do governo têm como fonte principal os impostos, as nossas estatais foram muitas delas privatizadas.
O povo cobra mais e mais serviços do governo e proporcionalmente querem menos impostos, eu sou mais favorável de um governo que faça mais o papel regulador do que provedor de serviços...
Phiron - Montes Claros- MG - 14/12/2011 - 21:28 - Responder no fórum
