O método Paulo Freire poderia ser facilmente utilizado para definir o Centro de Experiência Educativa (CEE), parceria entre Intel, HP e a associação ORT (Organização, Reconstrução e Trabalho, instituição educacional de origem judaica que se dedica ao ensino e treinamento tecnológico), em Buenos Aires, na Argentina. Mais do que aprender a lidar com as disciplinas, os alunos são convidados a incluí-las em sua realidade; não basta saber fórmulas matemáticas, é preciso casá-las com as formas da natureza; a tecnologia, por si só, não se sustentaria caso não fosse imersa em uma conjuntura na qual fizesse sentido. Conhecer as entranhas da “escola” é mais do que uma experiência didática: é uma revelação sobre como a apropriação da tecnologia por parte dos alunos pode resultar em desenvolvimento e, principalmente, em produtos que podem transformar a realidade. E já o estão fazendo!
Localizada no aprazível bairro de Belgrano, na capital porteña, a escola é um ambiente no qual se respira tecnologia, seja nos laboratórios de robótica, de literatura, de idiomas, de desenvolvimento de games, aplicativos e até mesmo na sala de aula convencional. Os alunos são incentivados não só a desenvolver tecnologia – de ponta – mas também a usar todo o material disponível para seu crescimento individual e profissional. Em Buenos Aires, a ORT oferece bacharelado técnico, um instituto de tecnologia, um campus virtual, um campo de esportes, um observatório de novas tecnologias, um centro de graduação, um centro de empreendedorismo, em instalações que beneficiam 7.800 alunos, em programas de estudos que podem chegar a seis anos.
Na semana passada, a HP promoveu uma visita guiada, uma espécie de curso-relâmpago para jornalistas da América Latina, e o Fórum PCs estava lá. E tal qual os colegas de outros países, saímos de lá encantados com o que encontramos. Numa das demonstrações, fomos convidados a nos sentar com um grupo de três estudantes na faixa dos 14 anos cuja tarefa era dar vida a um pequeno robô, usando o kit Mindstorms, criado pela Lego, e, para controle dos fluxos de resposta do andróide, o programa Microsoft Visio. Interessante é que antes de partir para a construção do robô e a programação dos movimentos, os alunos aprendem a criar o roteiro, para depois codificar. Dessa forma, caso ocorram problemas eles seguirão uma lógica preestabelecida.
Todas as turmas têm acesso a recursos de altíssimo nível e os resultados têm sido fantásticos. Não à toa, um aluno da ORT Argentina abocanhou o ouro nas Olimpíadas Mundiais de Matemática, que contaram com a participação de 560 estudantes provenientes de 101 países. Todo ano, cerca de 800 projetos nascem nos laboratórios da escola, uma referência em tecnologia não só na Argentina mas em todo o mundo.
Dentre os projetos que ganharam corpo lá estão o Eye Mouse System e o Head Mouse. O primeiro, que está disponível gratuitamente na internet, foi criado tendo como público as pessoas com necessidades especiais que passam a poder comandar os computadores ou outros equipamentos através do piscar de olhos. Já o Head Mouse permite aos usuários tirar partido dos movimentos da cabeça para comandar equipamentos. Os alunos da ORT também estão desenvolvendo projetos de Realidade Aumentada (RA, inserção de objetos “virtuais” no “mundo real”), 3D Housing (maquetes virtuais de casas), projetos de sustentabilidade que possam trazer benefícios para a comunidade e até mesmo a construção de automóveis (um protótipo foi criado para a Citroen).
- Trata-se de um projeto de aprendizagem e um serviço público, um bem que é ao mesmo tempo individual e coletivo – diz Luis Felipe Nuñez, Relações Públicas da HP para a América Latina e Mercado Hispânico dos Estados Unidos, que acompanhou a visita às instalações da unidade ORT.
Uma das apostas mais agressivas da ORT é o Campus Virtual, ambiente de aprendizagem em formato de Wiki que une o “real” e o “virtual”, através da conexão entre alunos, professores e comunidade em uma grande rede social focada 100% em educação, que também conta com a participação de ex-alunos, referências de sucesso para os estudantes. Na rede, cada professor tem um espacinho de ligação direta com os estudantes; os alunos publicam resenhas de livros, baixam material didático, conversam uns com os outros, fazem trabalhos coletivos, se informam sobre as atividades da escola e, mais, estudam, através de aulas interativas e virtuais.
Parece simples, mas o Centro de Experiência Educativa leva muito a sério o lema “melhor educação, melhor país, melhor futuro”, trabalhando primeiro a educação humanística para, aí sim, pensar em uma formação tecnológica. Ali provavelmente se formarão os designers de interface do futuro. Um futuro que, diga-se, se delineia cada vez mais simples, mais orgânico.
Ainda não há planos concretos para o desenvolvimento de um centro do gênero no Brasil, uma pena. Na ORT trabalha-se uma nova forma de pedagogia – eles mesmos a batizam de Pedagogia 2.0. Agora, o Campus Virtual está sendo levado para outras regiões da Argentina – já chegou a 400 escolas – e começa a ganhar outros países da América Latina.
- O que se faz aqui é experimentar conhecimento e não apenas memorizá-lo – completa Luis Felipe.
Ele está certo – o que conhecemos na ORT é um dos ingredientes do sucesso: a mistura do sonho com as ferramentas capazes de transformá-los em realidade e, mais que tudo, o incentivo para a ousadia.
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Comentário (1)
Carlos Irving
Linda Elis Monteiro, adorei a sua matéria! Muito interessante. Mas sobre o programa educacional comentado no que foi dito: "leva muito a sério o lema “melhor educação, melhor país, melhor futuro”" Hahahah...no Brasil aqui o governo não leva a sério nada, inclusive na Educação. A cada governo que entra no Brasil, só querem é aproveitar o dinheiro para uso próprio deles ( corrupção etc ) durante o mandato deles e não pensam no futuro, daqui 10, 20, 40 anos...
Um programa desses de parceria com grandes empresas ( Intel e HP ), é algo muito promissor!
Em falar em Intel, a mesma só não se instalou no Brasil, devido a carga tributárias altíssimas em nosso país, isso já foi dito um dia! Se eu fosse presidente, daria insenção tributária por 1 ano ou mais, e diminuiria bem o imposto, pensando em longo prazo o tanto de geração de empregos diretos e indiretos que seriam criados se a Intel se estabelessesse aqui, seja AMD também. E consequentemente mais impostos, mas não o imposto inapropriado praticado aqui!
Brasil poderia ser uma potência mundial, pois o clima, a terra aqui, são excelentes; não há conflitos étnicos, enfim...o que falta é(...)
Carlos Irving - Araras-SP - 28/10/2011 - 12:16 - Responder no fórum
