Ele não era nada santo. Costumava ser evitado nos elevadores por funcionários que o amavam e o odiavam, com a mesma intensidade. Tirava a placa do carro para não ser multado, estacionava em vagas exclusivas para deficientes, embora não tivesse deficiência alguma, explodia à toa e era de um perfeccionismo que flertava com a insanidade. Estamos falando de um ser terrível, certo? Seria, caso esta pessoa não fosse Steve Jobs. Metamorfose ambulante, passou os últimos anos se dedicando a melhorar como pessoa e a mudar o mundo. A conquista do primeiro objetivo é incerta (ele era muito discreto), mas o segundo, certamente, ele atingiu. Steve Jobs mudou o mundo do qual se despediu esta semana.
A afirmação acima tenciona ser o mais isenta possível e deixar de lado o endeusamento feito pelo público e pela mídia depois da morte do fundador da Apple. Para a revista de maior circulação no país, ele está no céu, sentado em uma nuvem em forma de maçã enquanto se delicia com seu iPad; para outros, é o santo padroeiro da tecnologia e da inovação; para quem convive com ele há anos, mesmo que à distância, um profeta, um arrojado cientista do marketing que conseguiu o que poucos no mundo conseguirão: transformar o complexo em simples; o difícil em fácil; o feio no belo; o inútil em útil.
Muitas biografias já nasceram e decerto muitas virão agora que Steve Jobs se foi. Mesmo que o mercado tenha se preparado durante anos para o adeus (ele descobriu a doença, uma espécie rara de câncer no pâncreas, há anos), quando a hora chegou, veio acompanhada de uma solapada de dúvidas. Afinal, o que será daqui para a frente? Como ficará o mundo da tecnologia, sem o seu maior entusiasta e incentivador? E o mercado de música, sem o toque de Midas que era capaz de convencer os piratas digitais a pagarem por música e aplicativos mesmo tendo todas as oportunidades para baixá-los de graça nos torrents da vida? E o cinema, será que continuará a ser o mesmo, teremos outros Wall-E, Procurando Nemo, Up, Toy Story?
Aqueles que consideram exagero a quantidade de homenagens prestadas a Jobs certamente dirão que nada mudará, que a Apple está preparada (foi preparada pelo próprio Steve, diga-se) para sobreviver sem ele, que Tim Cook ou outro pode segurar a empresa pelas rédeas e continuar guiando-a, sempre à frente da concorrência, pelo menos no que diz respeito à tal inovação, marca insofismável da maçã. Mas é claro que Jobs fará falta – pura e simplesmente porque pessoas como ele, com seu talento, esmero e brilhantismo, não nascem o tempo todo. São raros os que têm o dom de não só oferecer ao mercado o que precisa no momento – simplicidade, praticidade, tecnologia simples aplicada ao cotidiano e ao organismo – como ainda prever o futuro e, melhor, traçar no presente o que será sucesso amanhã. Mais: do que será necessário no dia que ainda não chegou.
Também há os que desmereçam as conquistas de Jobs e da sua Apple – uma empresa que sempre zelou pelo seu direito, suas patentes, suas caixas pretas, seu software proprietário, brecou o download de aplicativos que feriam seus interesses, fechou acordos obscuros com operadoras, copiou da concorrência e foi copiada, estabeleceu políticas exclusivistas e ignorou a existência de mercados (como o brasileiro). Tudo verdade, mesmo que em alguns momentos carreguem demais na tinta. Jobs não foi perfeito, tampouco a Apple. Mas mesmo em sua imperfeição ele fez por merecer o respeito do concorrente e da imprensa que o questionava. Imprensa que, vale lembrar, conseguia manipular como mestre – inventando aparelhos perdidos, criando expectativa para seus anúncios, fazendo circular boatos em torno dos produtos. Assim fez a Apple ser a marca que mais ganhava em marketing espontâneo. A imprensa simplesmente gosta de falar dela e não se segura mesmo quando se sente manipulada.
Mas afinal que bem fez Steve Jobs ao planeta para merecer toda essa deferência? Em primeiro lugar, transformou a indústria da computação pessoal, criou uma interface simples e “humana” (orgânica, na verdade) e, melhor que isso, fez toda uma indústria se reinventar. Reciclou as ideias arcaicas e fez a concorrência fazer o mesmo. Deixou os computadores mais bonitos e mais simples – mostrou que bastava uma tomada voltada à energia e um cabo ligando o micro ao teclado e outro conectando o teclado ao corpo da máquina. Inseriu cores num mundo outrora cinza, criou curvas sinuosas, ousou ao lançar um micro em formato de cubo. Computadores de mão ganharam cores berrantes – e tudo ficou laranja, rosa, azul, verde… uniu o software ao hardware e fez com que o usuário não precisasse se importar nem com um nem com o outro: bastava a ele ligar (em alguns casos, nem isso, já que os produtos descansam sem perder energia) e pronto: tudo funcionando, sem grandes guerigueris.
Transformou a forma como ouvimos, compramos e consumimos música. Popularizou o formato digital, transportou-o para o iPod, um aparelho pequeno, gostoso e simples, dotado de uma rodinha sensual e cores saborosas. Fez o que a indústria da música, em sua miopia, deveria ter feito e deixou passar: ensinou os piratas de plantão a terem prazer ao comprar arquivos digitais, ao simplificar ao extremo o processo. Fez chover no deserto, nos mostrou para que serve um smartphone (para encher de aplicativos que nem sabíamos que precisávamos), nos encheu de capinhas de silicone, fones, cases, frescuras mil que nos fazem felizes. Consumismo puro, certo? Sim, com certeza! Mas vivemos ou não num planeta que vibra com o capitalismo? Santo não era, mesmo!
Mudou o design e fez com que ficássemos mais exigentes por isso. E foi assim que passamos a dar mais valor à beleza dos objetos – e aí estão para provar o iMac em versão “luminária”, o iPhone, as versões de iPod, o iPad, o MacBook Air, uma coisa tão linda que quem pode acaba comprando sem nem mesmo precisar. E o mouse, que dentro daquela caixinha de acrílico parece uma pequena gema? (eu mesma comprei um, nunca usei mas deixei na caixa, vez ou outra vou olhar só para admirar). Nada era feito separadamente – todos os produtos e suas peças faziam parte de um conjunto bem arrumado, coeso, belo, a embalagem minimalista e nada de manual. Nem precisa – depois do iPhone, nenhum aparelho foi capaz de se mostrar tão simples de mexer.
Na maestria com que pensava os objetos e seu uso residia a genialidade de Jobs, que não foi apenas um expoente da tecnologia – tirou partido dela para criar objetos que facilitam o dia a dia ou simplesmente o deixam mais esperto e divertido. O mercado passou anos tentando lançar um tablet, modelos vários chegaram às prateleiras, mas foi o iPad que popularizou o formato. E ele chega aos milhões nas lojas e, destas, para as mãos dos sedentos consumidores. E reinventa a forma como as pessoas acessam a internet, seus arquivos pessoais e como se lerá daqui para a frente.
Jobs não foi cantor nem ator nem diretor de cinema. Mas era ídolo pop, sim. Trabalhou com tecnologia, cinema, música, marketing, shows (os seus eram disputadíssimos e esperadíssimos). Foi o artista da forma e transformou objetos inanimados em seres vivos que dormem com os donos, falam com estes, os entretêm e informam. Foi o mágico cuja varinha era o gosto apurado, um sentido raro capaz de pensar um produto em seu todo – como é comprado, aberto, consumido, explorado e, depois, substituído. Deixou muita gente com os bolsos nus, e outros salivando por mais novidades. Não lançou o iPhone 5 nem lançará, mas deixou os alicerces para revoluções que ainda não findaram.
Não foi filantropo nem queria ser. Pensava menos em dinheiro e mais em poder e perfeição. Queria deixar uma marca bem grande no planeta (chegou a dizer isso várias vezes) e o fez. Teve uma vida realizada, apesar dos anos de sofrimento. E realizou os sonhos consumistas de muita gente; divertiu muitas crianças com os filmes da Pixar; engordou a caixinha dos acionistas da Apple; deixou Bill Gates, Larry Page e Sergey Brin com cabelos brancos; teve a cabeça dissecada por autores mundo afora, embora a primeira biografia autorizada ainda não tenha saído; fez inimigos no mercado e na imprensa; foi cavalheiro e gentil e, ao mesmo tempo, muito hostil. Contraditório. Amado demais pelos Macmaníacos, desprezado por um tanto de gente; showman; monocromático e colorido. Foi tudo e foi, principalmente, gênio.
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Comentários (4)
jairovital
Mas que bela coluna, menina Elis! Na minha opinião você conseguiu justa e necessária imparcialidade nessa resenha, quando a maioria dos textos que se lê por aí está toda contaminada de informações incompletas ou desnecessárias. Ficou um resumo primoroso. Parabéns!
jairovital - 10/10/2011 - 12:47 - Responder no fórum
alexrsg
Que excelente texto você escreveu!!! Perfeitamente interessante e emocionante. Imaginei um filme ao ler cada linha!
Parabéns a você, Elis, e a Steve!!!
alexrsg - Bahia/Brasil - 10/10/2011 - 12:59 - Responder no fórum
pedrogbs
Muito bom texto Elis, impressionante, imparcial e muito gostoso de ler. Cativante e emoconante!!
Parabnes!!
pedrogbs - 10/10/2011 - 15:54 - Responder no fórum
pauher
Mais do mesmo... Tentei ser conciso mas o sistema de proteção do site pediu mais, seria por isso que se escrevemos tanto sobre tantas coisas que tantos já escreveram?
pauher - 18/10/2011 - 20:35 - Responder no fórum
