Um dos principais argumentos usados pelos detratores de redes sociais é a quantidade de inutilidades que elas contêm. É fato: há muito conteúdo descartável, fútil, descabido e, por vezes, idiota mesmo. Não tem jeito: onde há gente há confusão, humor e mau humor, bullying, piadas de mau gosto, correntes desnecessárias sendo espalhadas aos quatro cantos do ciberespaço. Para a sorte dos que veem a Web como coisa séria, no entanto, há movimentos e causas que, pelos resultados alcançados e pela grandeza das propostas, equilibram o pêndulo a favor da qualidade do conteúdo digital. Há uma rede silenciosa de solidariedade que ganha força a cada dia, clubes de ajuda coletiva que servem de amostra de como a internet pode ser uma aliada importante do ser humano em seus momentos de fragilidade.
Em julho deste ano, um pequeno anjo deixou este planeta para se tornar um pontinho luminoso no céu: a pequena Ana Luiza, de sete anos, faleceu depois de meses de luta contra um câncer muito agressivo. A saga da pequena Ana foi compartilhada pela mãe e pelo padrasto durante meses no blog VidAnormal e a história comoveu milhares de internautas. Assim como Ana Luiza, a pequena Giulia teve a luta contra o câncer detalhada em cada passo, em cada seção de quimioterapia, cada enjoo, cada vitória, e em todos os momentos os pais e familiares nunca estiveram só. Este é o lado generoso da grande rede, uma multidão de pessoas do bem que separam horas de suas vidas para doar a si mesmas. Entendam a ênfase no “doar a si mesmas”. Porque, aqui, o bem mais importante neste intercâmbio é o apoio, o carinho, a empatia, a mão estendida.
Ana Luiza e Giulia, ambas do Amazonas, não venceram o câncer e se tornaram exemplos de força – delas próprias, duas bravas guerreiras, e dos pais, que se uniram a outros internautas na criação de um instituto batizado de ALGUEM, que visa a ajudar famílias que recebem o diagnóstico de câncer e, mais do que de força, precisam de informações e recursos para o tratamento e vitória contra a doença. Segundo os organizadores do movimento, além da notícia devastadora da doença, os pais/familiares de crianças com câncer “precisam conviver com um cenário em que o câncer infantil, como até décadas atrás, é tratado como sentença de morte. Faltam números, estatísticas, perfis, controle, investimentos e pesquisas no assunto”.
Assim como aconteceu com Ana Luíza e Giulia, há dezenas de outros casos de crianças e também adultos que contam com a internet num momento em que uma notícia devastadora teria tudo para desestabilizar até o mais forte dos seres. A rede solidária que se descortina por trás dos monitores é tudo menos anônima ou virtual – sua atuação é REAL, segue desde a força nos comentários e tweets e retweets e se materializa nos momentos mais difíceis sob a forma de ombros amigos e mãos e sorrisos unidos nas horas felizes. É por essas e por outras demonstrações que se percebe que, sim, há uma nova era de solidariedade e generosidade que vai muito além do “curtir” em nome do ego ou do post em causa própria. A internet é um organismo vivo, um canal que liga quem quer ajudar a quem precisa de suporte.
Um caso recente mexeu com os frequentadores do Twitter e emocionou a todos que porventura tenham ouvido falar: a adolescente Gabriela (no Twitter e no blog) contava na Web detalhes de seu tratamento contra o câncer no cérebro. Cada passo era compartilhado com os amigos, que nada tinham de virtuais. Ficaram tão próximos que quando Gabi precisou raspar a cabeça – sabendo que os fios iriam cair por conta da quimioterapia – amigos de diversas partes do país se uniram numa corrente linda: muitos rasparam a cabeça junto com ela, tudo filmado e devidamente enviado para a lutadora, que ganhou ainda mais força para enfrentar o que seriam, o que depois se constataria, seus últimos meses de vida.
Por pessoas incríveis foi criado o movimento #raspandoporGabi, que a própria chegou a comentar em seu blog: “acho que esse é o post mais difícil que eu vou fazer, porque certamente não vou conseguir expressar o tamanho da emoção e energia que eu recebi de tanta gente que me ama de perto, de longe e até de desconhecidos…”
Outro caso de união em prol de um amigo que passa por maus bocados aconteceu em Governador Valadares, Minas Gerais. O jovem Arthur Gonçalves descobriu há três meses que tinha um tipo raro de câncer, denominado “Sarcoma de Ewing”, ao descobrir um caroço depois de cortar os cabelos. Ao perceberem que Arthur estava deprimido com a queda dos cabelos após o início das sessões de quimioterapia, em solidariedade a ele colegas e amigos rasparam a cabeça em plena sala de aula. Nasciam assim 23 carecas solidários. O vídeo da “raspagem coletiva” é emocionante, não mais que o ato, de uma generosidade sem igual.
Há alguns meses, um movimento criado pelos pais do menino carioca Guilherme Mezabarba, de apenas nove meses de idade, acabou indo parar na grande imprensa. Desesperados e sem saber como sobreviver e agir meio à luta contra uma doença chamada Granulomatosa Crônica (DGC), seus pais criaram um movimento no Twitter e um perfil no Facebook chamado “Força Gui”, que uniu milhares de pessoas Brasil afora. Não foi uma revolução de sofá, entendam: os bancos de coleta de sangue receberam milhares de pessoas. Eu mesma fui correndo para o Hemorio – doei sangue e me cadastrei no banco de doadores de medula óssea. Agora, tudo se encaminha para um final feliz na história do pequeno Gui – um doador foi encontrado no banco internacional de medula óssea e os pais, na expectativa, continuam compartilhando as informações nas redes sociais – e retribuem toda a ajuda recebida ajudando outras pessoas que passam por situações semelhantes.
Assim como o #ForçaGui, foram criados movimentos para ajudar outras crianças, como a pequena Isadora, de Florianópolis (@forcaIsadora) e a linda Maria Clara, que sofre de Leucemia Linfoblástica Aguda (@forcaMariaClara). Em todos os casos, os pais colocam contatos à disposição dos visitantes e pedem ajuda em forma de doações, palavras, orações e, principalmente, carinho.
Outro caso emblemático é o de Eduardo Próspero, jovem de 21 anos, morador de Guarulhos/SP, estudante de Direito e portador de mucopolissacaridose tipo VI. Eduardo criou um blog no qual trata de vários aspectos da doença e tem por objetivo aproximar os portadores do mal e seus familiares.
Mais um exemplo de união em torno de uma causa foi dado depois do atropelamento da bela Carol Rocha (@tchulimtchulim), acontecido em 10 de agosto deste ano. Depois de semanas de internação, Carol solicitou home care ao seu plano de saúde (Bradesco), que negou. Uma rede de solidariedade se formou para pressionar a operadora e o resultado, positivo, pode ser conferido aqui. Ainda durante a internação no hospital, os amigos de Carol, que equivocadamente poderiam ser considerados meros avatares, criaram a hashtag #Vaidoa e um blog, uma campanha de doação de sangue que mobilizou centenas de pessoas.
Enquanto isso, o escritor Wolfgang Herrndorf, autor do celebrado “Tchick”, aos 46 anos sofre de câncer no cérebro. Desesperançado e desesperado em busca de apoio emocional, o alemão passou a compartilhar, em seu blog, temas como medicamentos, reações adversas, ataques epiléticos causados pelo tumor, dentre outros. Quando Wolfgang perdeu a fala, o fato também foi compartilhado e acompanhado pelos amigos virtuais.
Pois uma frase de Wolfgang, publicada no blog, define o que sente um comunicador quando vê sua voz ser interrompida: “Estou arrasado por ser incapaz de falar. Este não é o meu mundo. A vida humana termina quando a comunicação acaba”. A declaração define a necessidade que pais e amigos e os próprios doentes têm de compartilhar sua dor e suas alegrias com o mundo: a comunicação com outros seres humanos, assim como a resposta que recebem do próximo, faz MESMO muita diferença. E pode ser o fiel da balança entre a decisão de desistir ou de lutar.
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