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Elis Monteiro
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Sua Web editada – isso é bom?

Postado as 18:37 - 20/07/2011 - Por Elis Monteiro. Categorias: Aplicativos, Comportamento, Redes Sociais.

4votos  

No final do ano passado, o pai da WWW (World Wide Web), Sir Tim Berners-Lee, foi xingado de todos os nomes, aviltado, taxado de ignorante, ultrapassado, de ser inimigo das redes sociais, afinal, é dentro delas que a democracia se mostra em todo o seu potencial. Por conta de uma entrevista na qual mostra sua preocupação com a concentração de poder na Web, para alguns dos mais conscientes “gurus das mídias sociais” (ironia, por favor), Berners-Lee saiu da lista de heróis – criador que foi daquela que viria a ser a porta para o acesso de qualquer um ao maravilhoso mundo da internet, essa rede conectada que transformou a comunicação – para se tornar um detrator do “sistema”. Não pude deixar de me lembrar disso ao assistir, agora, a uma palestra sensacional do escritor Eli Pariser, no TED.com. Assista aqui. O tema? Filtros-bolha. Vamos falar sobre isso…

Por que Berners-Lee e Pariser precisam ser ouvidos? Vamos primeiro aos argumentos de Berners-Lee: em entrevista à revista Scientific American, ele disse que as redes sociais se tornaram uma grande plataforma de conteúdo fechado. “Quanto mais esse tipo de arquitetura ganhar espaço, mais a web se tornará fragmentada e menor será o ambiente onde as pessoas poderão compartilhar conteúdo de modo universal”, disse ele.

Berners-Lee também se mostrou preocupado com os métodos usados por Apple e seu iTunes, segundo ele “restritivos e centralizadores”.

- Você só pode acessar um link do iTunes se usar o próprio programa patenteado pela Apple. Você não está mais na web, está restrito a uma loja e não em um ambiente aberto. Apesar de todas as características incríveis, sua evolução é limitada ao desejo de uma única companhia – afirmou, na mesma entrevista.

O que Berners-Lee quis dizer bate com o que a capa da revista Wired estampou mais ou menos um ano atrás, quando Chris Anderson afirmou, com todas as letras, que “a Web está morta” por conta da quantidade incomensurável de aplicativos que tiram o usuário da www e fazem com que ele use direto a internet. Faz muito sentido, embora esta revolução só deva acontecer por aqui daqui a alguns anos – lá fora a coisa fica pior para a www a cada dia.

Eli Pariser levanta outra preocupação: para ele, por trás da “personalização”, as redes sociais e as ferramentas de busca estão nos tirando informações que poderiam desafiar ou ampliar nossa visão de mundo. Ou seja, se ficamos só olhando para o nosso umbigo – o nosso universo, pessoas que conhecemos, assuntos que as redes escolhem como recorrentes em nossas redes – não olhamos mais para um mundaréu de dados e aprendizado. Pariser, que é presidente do conselho da MoveOn e membro sênior do Instituto Roosevelt, manifesta sua preocupação com o que chama de “filtro-bolha”, e já escreveu um livro sobre isso, intitulado “The Filter Bubble: what the internet is hiding from you” (O filtro-bolha: o que a internet está escondendo de você).

Os tais filtros são os algoritmos usados por empresas como Facebook e Google para tornar a experiência de navegação o mais próxima possível do usuário, moldando-a aos seus gostos e interesses (notícias, pesquisas, atualizações de status de conexões), aproximando-a o máximo de quem a gente é. Ou seja, limitando-nos ao reforçar nossa visão de mundo e nos tirando tudo o que possa ir além de nossos horizontes.

O escritor abre a palestra com uma declaração de Mark Zuckerberg (criador do Facebook) que ele considera crítica: “Um esquilo que morre em seu bairro pode ser mais relevante para os seus interesses neste momento do que pessoas morrendo na África”, respondendo a uma jornalista sobre por que o Facebook é tão importante.

É claro que não dá para descontextualizar a frase de Zuckerberg e fazer dele o pior ser humano do planeta por conta da declaração. Mas o que Pariser quer provar com isso é que as ferramentas ficam cada vez mais “redondas”, tão perto de nós que aos poucos deixaremos de receber informações sobre outros países, outros estados, e que essa é uma ameaça concreta à democracia.

Pariser bate de frente com a questão da relevância, tão usada em plena era das redes sociais. O que é relevante para você? O que é para mim? Temos visões diferentes do mundo, gostamos de coisas diversas; e se fizermos uma busca no Google sobre o mesmo assunto, obteremos respostas completamente diferentes, dependendo do browser que usamos, do local no qual nos encontramos, do perfil que apresentamos na Rede. E ele mostra, na palestra, pesquisas que realizou com pessoas completamente diferentes buscando a palavra “Egito” durante os conflitos deste ano.

Os filtros-bolha agem como vidros, que nos separam da realidade, e a tendência é que eles fiquem cada vez mais eficientes. Esse é o alerta. Mas uma pergunta pode vir à mente: mas será que queremos de verdade ter nossa visão de mundo contestada? Queremos nos expor ao que não nos diz respeito diretamente? Queremos saber sobre o esquilo perto de casa porque ele pode nos atrapalhar na chegada ao lar ou as pessoas morrendo na África é uma informação da qual não quero abrir mão? Cá entre nós: há gente que prefira a bênção da ignorância; é menos dolorida e muito mais cômoda, certo?

- Quando eu estava crescendo, numa área rural do Maine (estado americano), a internet significava uma coisa completamente diferente para mim: significava conexão para o mundo, algo que nos ligaria a todos. E eu tinha a certeza de que ela seria ótima para a democracia e para a sociedade. Mas aconteceu este tipo de mudança na forma como as informações fluem online. E ela é invisível – diz Pariser.

O próprio conta o que está havendo com o seu status de atualização do Facebook: disse ele que tem amigos conservadoras e progressistas (politicamente) e que fazia questão de manter ambas as correntes justamente para ficar a par das opiniões das duas. Mas que de acordo com os links que ele clicava, o Facebook foi montando a personalidade dele e, sem que ele se desse conta, os links dos “conservadores”, nos quais ele clicava menos, foram sumindo de sua vida dentro da rede, no que ele chama de “edição invisível da Web”. E aqui surge uma curiosa nova figura: o porteiro da internet, aquele sujeito que vai barrando tudo o que acha que não nos diz respeito, com a diferença de que ele atende às regras dos que se acham os síndicos, e não aos pedidos dos moradores. Não é coisa à beça pra gente considerar?

Qual seria, alguns vão perguntar, o real interesse de Facebook, Google, Yahoo!, etc, ao realizar a tal “edição da web”? Consumo, claro! Agradar patrocinadores, oferecer sempre o que for, na opinião de seus anunciantes, o perfil dos usuários. E os algoritmos ficam cada vez mais sofisticados, o que pode servir tanto para nos agradar quanto para nos cegar. O que vocês preferem?

Comentários (5)   

gbandeira

Fantástica a coluna Elis, eu realmente acredito que esse tipo de filtro acaba desvirtualizando o real sentido da internet que é o acesso à informação, mas a toda e qualquer informação e não somente à informação que uma empresa acha que é importante ou interessante para mim.

gbandeira - Salvador - Bahia - 21/07/2011 - 18:10 - Responder no fórum

Jonas Paulo Negreiros

Pois é, Elis.
Hoje abro a página inicial de meu provedor e só vejo estampadas frivolidades. Onde foi parar a responsabilidade dos editores?

Jonas Paulo Negreiros - Jundiaí - SP - 21/07/2011 - 19:39 - Responder no fórum

Forest Guardian

Nossa, eu já havia começado a me incomodar com o resultado das pesqusias do Google, que de uns tempos pra cá começaram a dar ênfase somente em páginas brasileiras e até em notícias da minha cidade. Até mesmo quando pesquiso algum termo em inglês, se ele encontra uma página brasileira com este termo, esta é apresentada primeiro.

Eu realmente não gosto desse direcionamento contra a minha vontade. Sensacional que tenha mais gente já se preocupando com isso também, fico até mais aliviado depois de ler a coluna!

Forest Guardian - São Bernardo do Campo - SP - Brasil - 25/07/2011 - 10:11 - Responder no fórum

waldisley

Parabéns Elis,

Mais colunas deste tipo por favor, conteúdo de relevância em portugues é sempre bem vindo.

Sempre que puder, apronte uma destas para nós.

obrigado

waldisley - 26/07/2011 - 02:56 - Responder no fórum

swib

É muito mais do que bom, é ótimo.

Entendo a crítica dos autores que você citou, entretanto acho puro drama, filosofia e utopia.

Democracia? Democracia nada! Quem somos nós, atualmente, de mudar algo em outro país. Não conseguimos nem no nosso, olha quantos abaixo assinado temos por aí, aquele preço justo já com mais de 500 mil não tá indo para frente. E olha que esse eu jurava que daria certo.

Essa parte da democracia eu realmente não contesto e acho que seria uma perda, quer dizer, seria uma perda se nós tivessemos, mas não temos! Podemos perder a possibilidade, mas sempre a tivemos e não exercemos até agora, para que se preocupar tanto então, por isso digo: Drama, mimimi.

Estava trocando e-mail no gmail agora sobre perfumes, e o que aparece de publicidade para mim ali em cima? Perfumes, EXCELENTE, e uma loja ainda que eu demorei para encontrar, lá... na minha frente, tão fácil, só de trocar mensagem sober isso.

Muitoooooooooooo melhor que esse MONTE de LIXO que tem na internet. Um direcionamento e filtro é tudo que nós precisamos atualmente.

Tá pesquisando sobre morte? Sem dúvida alguma a do esquilinho perto do seu bairro é muito mais importante(...)

swib - 26/07/2011 - 12:31 - Responder no fórum

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