Acabar com o vício em nicotina é complicado? Então, que tal desenvolver um cigarro que, em vez de matar, seja capaz de curar? São desafios desse tipo – a princípio tidos como insanos – que o mundo da ciência tentar vencer, com um complicado agravante: também é preciso lutar contra poderosas indústrias da morte, como a tabagista ou o mercado de água, que não permite a despoluição em determinadas regiões. Ou seja, a ciência precisa andar lado a lado com eficientes lobistas “do bem”, que estejam dispostos a correr na frente daqueles que só pensam em…lucro! Numa sociedade capitalista, é tarefa das mais hercúleas.
Este também é um desafio para a Singularity University, assunto sobre o qual nos debruçamos nas duas últimas colunas e tema que se encerra aqui – pelo menos por enquanto. Uma das invenções apresentadas que mais chamou a atenção dos alunos foi o X Prize, que não é novo mas tem uma capacidade incrível de se reinventar. Um dos professores do curso executivo Google-Nasa, realizado em São Paulo em parceria com a FIAP, era justamente o criador do Prêmio, Peter Diamands, um visionário capaz de tirar leite de pedra e, por que não, água da Lua.
Para Diamands, a pergunta que todos deveriam se fazer é “qual é sua missão na vida?. Parece simples, mas é das questões mais complicadas. Para realizar grandes transformações, diz o professor, é preciso uma dose, mesmo que mínima, de insanidade. Diz ele que a inovação é a propensão a falhar e que grandes descobertas só acontecem de verdade com uma pitada de ideias loucas. Ao mesmo tempo, ideias insanas sem prazo nem premiações podem acabar se perdendo. Sendo assim, Diamands resolveu ativar o poder das restrições e criar um prêmio milionário – o X Prize – capaz de fomentar a busca por grandes transformações, atrás do dom empreendedor que todos possuímos mas que poucos desenvolvem de fato.
- As pessoas são preguiçosas. Se você restringir as ideias, limitando-as a um prazo, por exemplo, elas vão tentar. Muitas vão falhar, mas o elemento de restrição leva a novas maneiras de pensar. E os fracassos acabam ensinando também – disse Diamands, citando Thomas Edison.
Os próximos X Prizes são bem interessantes. O primeiro deles oferecerá um prêmio milionário para a equipe que desenvolver um médico (robô ou não) dotado de inteligência artificial capaz de dar conta de diversas especialidades médicas, trabalhando como uma equipe solitária, liberando os demais profissionais para outras tarefas. Outro prêmio já anunciado visa a estimular a criação de um aparelho em cima do qual o paciente possa tossir – a proposta é que tal equipamento possa, em seguida, prescrever um antibiótico apenas pela identificação de bactérias e outros bichos nas gotas de saliva.
Há prêmios sendo oferecidos para cientistas que apresentarem um equipamento capaz de dessalinizar água do mar. O projeto, é claro, precisa ser pensado para ser usado em larga escala. Contou Neil Jacobstein, presidente da SU, que há um projeto sendo incubado que tira partido da osmose reversa. A Fundação X Prize também corre atrás de nanofiltros movidos a energia solar e outras invenções que possam impactar um bilhão de pessoas a curto prazo.
O X Prize mais conhecido é o Google Lunar, que vai pagar US$ 30 milhões para a primeira equipe que enviar um robô para a Lua, recorrendo a no mínimo 90% de investimento privado. A divisão do prêmio se dá assim: US$ 20 milhões vão para a primeira equipe que conseguir pousar uma espaçonave de propriedade privada na Lua, fazer um robô vagar na superfície lunar por no mínimo 500 metros e transmitir imagens de vídeos e dados para a Terra, até 31 de dezembro de 2012; após 31 de dezembro de 2012, caso ninguém tenha cumprido a tarefa, o prêmio será reduzido para US$ 15 milhões e o prazo será estendido até 31 de dezembro de 2014. Ah, sim: um prêmio bônus de US$ 5 milhões será dado a quem percorrer distâncias maiores que 5 mil metros, fazer funcionar o robô durante a longa noite lunar (14 dias) ou encontrar destroços de outras missões lunares.
Ainda estamos longe de assistir à premiação do time vencedor, mas o desafio continua. A boa notícia é que a Nasa anunciou, agora em dezembro, a publicação dos dados relativos a três projetos que visam a levar a cabo o desafio de levar uma espaçonave novamente à Lua – os projetos foram validados e a corrida espacial ganha, assim, mais chances rumo à viabilidade. Nos próximos meses, cada equipe apresentará detalhes técnicos das missões. A Nasa chega, assim, à era Lua 2.0, uma era que, diz a entidade, está apenas começando. E as tecnologias exponenciais estão aí para serem usadas pelas equipes, marcando uma diferença abissal entre esta e a primeira era de exploração lunar.
Lado a lado com o Google Lunar, a Fundação X Prize anunciou os próximos X Prizes ligados às áreas de energia e meio ambiente, educação e desenvolvimento global e ciências da vida. Cada categoria apresenta um desafio diferente, mas sempre com o mesmo objetivo: impactar positivamente a vida no planeta. Em relação ao desenvolvimento global, por exemplo, o próximo X Prize procura empreendedores capazes de lutar contra a pobreza global. O foco está em encontrar métodos capazes de catalisar o desenvolvimento em agricultura, educação, saúde e água.
Em novembro, foi anunciado o vencedor do X Prize automotivo (Progressive Automotive X Prize). O projeto Edison2 Light Car levou US$ 5 milhões com um veículo capaz de percorrer o equivalente a 42km/l usando uma pequena cilindrada e um peso muito baixo. Esta edição do X Prize ofereceu US$ 10 milhões para projetistas capazes de criar alternativas viáveis em consumo de combustível. Apenas sete equipes chegaram ao final do campeonato e o vencedor provou que é possível a criação de um veículo com motor de um cilindro movido a Etanol – e não elétrico ou híbrido, como a maioria esperava. Ou seja, mesmo que usando tecnologias já existentes, o projeto foi ousado no sentido de apresentar uma alternativa mais simples.
E já que estamos falando em prêmios, vale lembrar um projeto apresentado durante o curso da Singularity University que tem tudo a ver com o X Prize e pode ser tão inovador quanto. A inteligência artificial está se desenvolvendo tão rapidamente que a IBM está criando um sistema robótico capaz de vencer o famoso concurso americano Jeopardy. O sistema, que roda em supercomputadores BlueGene, é capaz de identificar uma dica do apresentador e buscar a resposta mais correta para a pergunta feita. O projeto, batizado de “What is Watson?”, é uma das mais impressionantes pesquisas já em curso e mostra o potencial das tecnologias exponenciais para transformar radicalmente a forma como lidamos com a inteligência artificial, o que pode gerar ganhos consideráveis para o planeta.
E com esta coluna chegamos ao final da trilogia sobre o mergulho na Singularity University. A intenção era deixar uma pulguinha atrás da orelha de cada um. Depois de passar dois meses com um elefante atrás da minha orelha esquerda (estou esperando um hipopótamo para a direita), pelo menos pude compartilhar algumas das descobertas que fiz e, claro, contar um pouco do que é mergulhar num mundo de cientistas e tecnologias inimagináveis. É simplesmente…arrebatador!
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Comentário (1)
Flavio Xandó
Oi Elis, só agora estou colocando minha leitua em dia. Comentar uma coluna usando um Blackberry não é tarefa das mais simples, mas näo poderia deixar passar. ADOREI esta sequência! E por fim fiquei com o elefante e o hipopótamO atrás da orelha!
A propósito, um ÓTIMO 2011 para você e sua família e parabéns pelo texto no GLOBO!
Flavio Xandó - 02/01/2011 - 21:37 - Responder no fórum
