“Como estávamos cegos…” foi a expressão da qual mais me senti íntima durante o mergulho na Singularity University (SU), a universidade do Google e da Nasa que ofereceu, recentemente, um curso executivo em São Paulo. A declaração, de autoria do professor Salim Ismail, diretor-executivo da SU, foi uma dentre as centenas que fizeram todo mundo refletir e confirmar, ainda que sem palavras. Afinal, como buscamos informações sobre o que já é realidade e o que faz parte do inconsciente coletivo?
Por trás da dita cegueira, o ideal da Singularity – fazer a tecnologia mudar a vida de um bilhão de pessoas, a curto prazo. Através do esforço de cientistas, da comunidade acadêmica, de empresários e dos “plantadores de ideias”, gente que, como eu, estava lá sentado na cadeira, tentando entender seu papel num mundo em plena era da transformação. Porque ela está acontecendo, nós é que estamos ainda cegos demais, pensando nas mesmas coisas, realizando os nossos projetinhos, enquanto o planeta demanda mais e mais tecnologia transformadora. E ação para saber usá-la na hora e na medida certas.
A escolha de vários campos da Ciência para formar uma grande e produtiva rede de utilização das tecnologias exponenciais com objetivos humanitários é a maior marca da SU. E enquanto corre atrás da transformação, prepara a sociedade para as mudanças causadas pela aceleração da tecnologia.
- Queremos reunir e treinar líderes para desenvolver tecnologias avançadas, de forma a usarmos essas benesses para fazer o planeta crescer exponencialmente – disse Ray Kurzweil, o grande líder da nova Singularidade e guru da SU.
Os alunos da universidade são estimulados a pensar desafios como comida (assim nasceu o projeto “Food for cities”); Energia (foi gerado o projeto “Home Energy Usage”); Água; Espaço e por aí vai. No tópico Água, por exemplo, Ray citou o caso do projeto que tem como missão separar água e sal por moléculas, o que pode vir a resolver o problema da sede, um dos mais crueis que a sociedade deve enfrentar a partir de agora. Tudo dentro da SU e utilizando o conceito de cruzamento de campos diferentes de estudo e partindo do pressuposto de que o metabolismo das oportunidades está se transformando e um novo mapa de profissões e necessidades se desenha.
A ideia de analisar as mudanças sob a ótica das oportunidades ganha corpo e faz com que os desafios do planeta deixem de ser avaliados apenas pelos eco-chatos e ambientalistas de plantão. O discurso não é mais apenas verde – ele é multicolorido e precisa das habilidades de todos. Por que um especialista em robótica não pode fazer sua parte, assim como um expert em inteligência artificial e neurociência? Essa é a proposta – cruzar áreas diferentes do conhecimento, sempre com uma meta em comum: o bem do planeta Terra.
Ou o bem de outros planetas. Afinal, não dá para fazer um curso executivo com professores da Nasa sem falar em vida extraterrestre. Não à toa, Google e Nasa, assim como Autodesk e IBM, outras beneméritas da SU, fizeram questão de incluir astronautas como docentes da universidade. É o caso de Dan Barry e suas muitas viagens espaciais, contadas em detalhe durante o curso. Uma complicada aula de Robótica pode, assim, ficar mais divertida quando o professor resolver contar seus “causos espaciais”. E aqui entra uma historinha: disse Barry que, no espaço, o maior desafio humano é conseguir relaxar com os braços para baixo – quando relaxamos aqui, sob o efeito da gravidade, o que normalmente fazemos em posição de “sentido!”, nossas mãos pendem para baixo. No espaço, quando o homem relaxa, seus braços vão para a frente de seus olhos. Estranho. Mas divertido!
Dan Barry, diga-se de passagem, é um interessante caso de persistência e volta por cima: médico e, agora, especialista em robótica, tentou entrar para a Nasa durante 14 anos. Foram 13 “nãos” para ver chegar o tão sonhado “sim” que, a reboque, trouxe a primeira ida ao espaço, luxo pelo qual Larry Page, um dos fundadores do Google, vai pagar milhões de dólares.
A computação é, como não podia deixar de ser, uma das áreas mais analisadas dentro da SU. Mas que fique claro – não estamos falando apenas de computadores, destes que estou usando agora para escrever este texto. Estamos falando na computação da forma mais abrangente possível. E se o último século viu nasceu o avião, a televisão, a internet, os telefones convencionais e os celulares, isso sem citarmos milhares de outras evoluções e invencionices nascidas em 110 anos de estupenda aceleração, o Século XXI, pregam os professores da Singularity, mostrará ao mundo o que é a verdadeira computação – não mais das máquinas, mas das coisas e das pessoas. A ideia, agora, é construir máquinas mais “humanas”, capazes de reconhecer não só sensações mas também sentimentos complexos como ironia e inveja.
Fato é que, diz Ray, a grande enrascada da Ciência é tentar compreender o incompreensível cérebro humano – nada menos que 130 trilhões de linhas de código para serem decifradas. E milhares de super cérebros tentando entender como se dá o pensamento humano e, mais: como fazer as máquinas chegarem pelo menos perto disso. Outro dilema a ser enfrentado é descobrir qual é a fonte da consciência dos tão perfeitos seres imperfeitos – nós.
Este será o século da Tecnologia da Informação, esperam os cientistas. E a previsão é de que os produtos sejam cada vez melhores em termos de qualidade – tudo culpa da TI. E enquanto a mão-de-obra fica mais cara, a produtividade aumenta. O problema a ser enfrentado é que os postos de trabalho nas áreas mais baixas estão sendo destruídos, e cresce o número de empregos nas áreas mais altas. Um desafio para a educação, numa era em que ninguém mais quer ser professor e os países buscam soluções para a educação primária.
E os computadores ficam cada vez menores. E estamos para ver chegar o dia – muito em breve – em que as imagens serão impressas diretamente em nossas retinas e, por isso, nem precisaremos mais de nenhum tipo de dispositivo – nós seremos nosso próprio computador (e quem já viu o sensacional vídeo do TED chamado “Sixth Sense”, publicado aqui, sabe do que estamos falando).
- Veremos uma imersão total na realidade virtual. É o que chamamos de a “internet sempre” disse Ray, deixando um gostinho de “Matrix” na boca de cada um dos alunos. É isso mesmo? Viveremos todos numa espécie de First Life, na qual não haverá uma separação óbvia entre o virtual e o real? (aqui já deixo minha opinião: acho que já estamos vivendo isso).
Ray não deixa de citar o iPhone como um caso importante a ser estudado – e o aparelho já tira partido das mais avançadas tecnologias, como a Realidade Aumentada. Sem que a gente dê conta, já estamos usando as mais incríveis tecnologias na palma da mão… Isso sem falar em telefones tradutores, que permitirão que qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo fale com outra sem precisar saber o idioma (seria o tão sonhado Esperanto?), telefones vestíveis, etc.
Em 2029, a Humanidade vai, enfim, se fundir com a tecnologia. Esta é a grande previsão da SU e que não tem nada de infundada.
- Hoje eu sou mais inteligente porque tenho acesso a mais informações. Só para vocês entenderem como se baseia essa previsão, digo que hoje já é possível fazer o download de softwares diretamente no seu cérebro. E aqui entra um alerta dado pelo “The New York Times”, de que já estão começando a aparecer hackers capazes de invadir cérebros humanos. Não necessariamente para nos atacar. Pode ser que eles entrem dentro dos nossos corpos simplesmente para nos curar – diz Ray.
Ah, mas isso é um devaneio…como assim hackers invasores de corpos e cérebros, fusão homem-máquina, tudo numa época em que enfrentamos desafios mais importantes como aquecimento global, enchentes, secas, falta de água? Prestem atenção, amigos: os cientistas estão estudando tudo isso em busca de soluções para os nossos grandes desafios.
E, aqui, encerramos mais uma parte do nosso estudo sobre as tecnologias exponenciais para nos ater a um questionamento que levantei durante o curso: enquanto uma parcela da sociedade estuda e tem acesso às mais avançadas tecnologias, como a compra de sequenciamento genético via internet (lembram do 23andMe?), outra muito populosa nada tem. Ou seja, a tecnologia poderá vir a criar duas humanidades? Quem respondeu foi Neil Jacobstein, presidente da SU:
- O preço da tecnologia diminui a ritmo acelerado, da mesma forma que ela se desenvolve. O Facebook foi criado com US$ 10 mil e agora vale US$ 20 bilhões. O celular, quando surgiu, era caro demais e agora você pode comprar um por menos de US$ 10. O Google foi criado num laptop caseiro. Menos de quinze anos atrás – respondeu Jacobstein.
Ou seja, a tecnologia aparece. E se multiplica. E chega a todo mundo. Mesmo que a alguns de forma mais lenta. Mas ela chega…
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Comentários (2)
Forest Guardian
2029, isso vai ser daqui 18 anos. Devo estar vivo pra ver isso. Legal!
Forest Guardian - São Bernardo do Campo - SP - Brasil - 21/12/2010 - 16:11 - Responder no fórum
vinax
É tudo muito bonito, mas como dizia o filósofo Garrincha: "Já combinaram com os russos".
Afinal, a humanidade sabia que a terra era redonda há mais de 2.000 anos. O grego Erastótenes (276-194 a.C.) chegou mesmo a calcular geometricamente o diâmetro da Terra com uma precisão excepcional.
De que adiantou? Nada. Tivemos depois um apagão de mais de 1.500 anosonde a terra era sustentada por dois(ou quatro) elefantes.
Assim, a tal tecnologia exponencial é mais uma, de muitas hipóteses, a prometer o El Dorado da tecnologia. Mas, no limite, quem viver verá!
A chamada era atômica tb previa um mar de prosperidade mas trouxe, no mais, o equilíbrio pelo terror!.
vinax - Rio de Janeiero - 27/12/2010 - 15:08 - Responder no fórum
