O título dessa coluna não é apenas isso: é muito mais. Trata-se de uma afirmação veemente feita por Dan Barry, astronauta formado pela NASA, fundador da Denbar Robotics, empresa que cria robôs para uso doméstico e comercial. Dan tem nada menos que sete patentes, mais de 50 artigos em jornais científicos e, agora, faz parte do dream team de professores da Singularity University, universidade arrojada criada pelo Google e pela NASA para estudos de tecnologias exponenciais e seu impacto no planeta
A declaração de Barry foi dada durante o curso executivo Singularity University/FIAP, em São Paulo, agora em novembro, do qual fui uma das alunas. Durante seis dias, o aluno participa de um verdadeiro mergulho nas tecnologias do futuro. Futuro este que, na verdade, não existe mais. A afirmação de Barry foi proferida depois que o professor foi indagado sobre a luta que a tecnologia trava contra as doenças e o envelhecimento. Segundo ele, já há estudos e projetos avançados no campo da oncologia, por exemplo, assim como tecnologias REAIS que permitem a reconstrução de órgãos humanos, até mesmo a impressão destes, via impressora 3D – os professores levaram, aliás, uma impressora do tipo para o curso.
Segundo Barry, da reconstrução de um órgão humano para a reconstrução de uma célula, inclusive sanguínea, é um passo – que já está sendo dado. Isso levaria (segundo ele, já está levando) à possibilidade da imortalidade. E caberia ao Homem decidir quando quer morrer.
Brincadeira? Não, senhor, apesar do bom humor com que Barry enfrenta a enxurrada de perguntas que se segue à sua audaciosa afirmação:
- É claro que teríamos problemas sociais causados pela imortalidade, como o excesso de pessoas, a falta de recursos. Além disso, quem aguentaria o mesmo chefe por mil anos? Você quer ser Dilbert para sempre? – brincou ele, lembrando que, ao mesmo tempo, as tecnologias exponenciais permitem uma aproximação cada vez maior do Homem com os outros planetas e satélites, dando a entender que, mais cedo do que imaginamos, viagens para outros planetas – e até moradia por lá – serão corriqueiras.
Nada na Singularity University é “normal”. Quando se fala em tecnologias exponenciais, nem o Céu é o limite, brincou Neil Jacobstein, presidente da Singularity e um dos professores do curso na FIAP. O currículo de Neil faz jus ao dos colegas: é fundador da organização não-governamental Institute for Molecular Manufacturing (IMM), especialista em Nanotecnologia, Inteligência Artificial, Energia e Ciências Ambientais, além de um incrível conhecimento em Administração e Gestão.
No Executive Program em São Paulo, Neil ministrou aulas sobre Inteligência Artificial e Nanotecnologia, além de participar das discussões de todas as outras disciplinas que fazem parte do currículo. Nada muito fácil, não: Biotecnologia & Bioinformática; Energia & Meio Ambiente; Redes e Sistemas Computacionais; Inteligência Artificial & Robótica; Medicina & Neurociência e Nanotecnologia. Assusta, mas tudo se resume a um mergulho seguro, pautado em experiências reais, um resumo do que já existe ao redor do planeta em experimentos, protótipos e tecnologias já aplicadas.
E não é pouca coisa, não! Desde a encomenda do sequenciamento do DNA via internet (visite www.23andme.com para saber do que se trata) para conhecimento prévio das doenças que cada indivíduo enfrentará no futuro, passando por saltos tecnológicos exponenciais que tornarão as viagens espaciais coisas rotineiras, tudo passa pela Singularity. O susto é descobrir que aquilo que nem ousávamos sonhar já existe, está sendo aplicado nos laboratórios científicos, deixando, assim, de fazer parte da ficção científica. Aluno da SU ri dos Jetsons, acha “The Big Band Theory” a mais normal das séries e tem nos cientistas seus grandes herois.
Contando um pouco sobre a Singularity University, vale a pena lembrar do que se trata a teoria da Singularidade, cujo maior expoente, hoje, é Raz Kurzweil, a grande figura da SU e também professor do curso do qual fiz parte (Ray também foi o criador da tecnologia OCR). A Singularidade se dará quando a Humanidade enfim alcançará uma grande transformação, viabilizada pela tecnologia, que impactará todos os campos do conhecimento, fazendo com que a vida nunca mais seja a mesma. Neste video disponível na coluna, filmado durante um TEDTalk de Ray em um TEDGlobal, dá para sacar um pouco mais sobre a Singularidade.
Críticos da Singularity University – há quem a chame de Vaticano dos geeks e, Ray, o Papa – dizem que ela nada mais é do que a busca pela integração entre homens e máquinas e uma espécie de disneylândia dos cientistas endinheirados.
Mas é muito mais que isso, claro. Nas palavras do próprio Ray, que também é professor da SU, “hoje, as pessoas pensam de modo linear, mas a tecnologia já é exponencial. Podemos ver isso nos últimos 110 anos da existência do planeta e tudo o que foi criado desde então. Comparemos 1900 com 2010. Mais simples ainda: pensemos em dez anos atrás, quando não usávamos celulares nem buscadores na Web. A tecnologia cresce de forma acelerada, mas nossas mentes não acompanham, ainda trabalha de forma intuitiva-linear”, diz Ray. “O uso da energia solar, por exemplo, dobra seu desempenho a cada dois anos”, completa.
Larry Page, sócio-fundador do Google e um dos patrocinadores e entusiastas da SU, não só diz que a Singularity University é a universidade que ele gostaria de ter feito como dá um conselho aos alunos: “Go Big”, ou seja, pense grande e enfoque nos maiores desafios que a tecnologia (e a Humanidade) têm a enfrentar – mudanças climáticas, pandemias, crises financeiras, etc.
Um dos mantras da SU é aquele que vaticina que as grandes ideias, aquelas que vão transformar a sociedade, surgem quando campos diferentes de atuação se cruzam. Não é à toa que a SU escolheu os campos de trabalho supracitados. E reuniu um verdadeiro time dos sonhos, capaz de ensinar e comprovar como as tecnologias exponenciais já estão transformando o planeta, sem nos darmos conta.
Dentro da Singularity, o objetivo é quebrar paradigmas – e mostrar como e por que motivo. E os professores, donos de seus currículos irretocáveis, não têm medo de falar sobre o que consideram ultrapassado e arcaico: é o caso do Teste de Turing para Inteligência Artificial, que o professor Neil Jacobstein (presidente da SU) considera incorreto. Mas há uma “lei”que nenhum deles contesta: a Lei de Moore, que diz que o número de transistores dos chips teria um aumento de 100%, pelo mesmo custo, a cada período de 18 meses, ou seja, a potência dos processadores dobraria a cada 18 meses, mantendo o preço. Na SU, no entanto, não se fala em dobrar a capacidade das tecnologias, mas de torná-las realmente exponenciais.
O curso teve ainda aulas de Salim Ismail, director-executivo da SU, ex-vice-presidente do Yahoo! e criador da Brickhouse, a “fábrica de ideias” interna do Yahoo! para geração, construção e lançamento de conceitos inovadores. Coube a Salim, no curso executivo, não só fazer o papel de mestre-de-cerimônias como o de explicar como a internet se transformou junto com o uso que as pessoas fazem dela (será o tema da nossa próxima coluna). Só para dar mais um exemplo da excelência do time acadêmico, outro professor é Andrew Hessel, responsável, na SU, pelas cadeiras de biotecnologia e bioinformática e catalisador de iniciativas nas áreas de biologia, biologia sintética, do programa internacional Genetically Engineered Machines (iGEM).
Passando por cada uma das disciplinas, ficou claro para todos os alunos (e, espero, durante as próximas colunas, fique claro para vocês também) que conhecemos muito pouco do que já é concreto em termos de utilização de tecnologias exponenciais em áreas fundamentais para a nossa sobrevivência e para o bem do planeta. Por isso, convido vocês a fazerem um passeio pelos exemplos e conceitos da SU nas próximas colunas, que tal?
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Comentários (13)
PCLOCK
Ainda estou digerindo... e estou assustado: "o futuro não é mais como era antigamente".
Ontem mesmo discutíamos aqui sobre a disponibilidade de tecnologias como a vista no filme Minority Report (interface touchless). Grandes filmes trazem visões de futuros que realmente não conceberíamos sozinhos. E dia-a-dia a ciência tem buscado materializar parte desse futuro através da inovação tecnológica.
Costumo ler muito o site Inovação Tecnológica e vejo que grandes descobertas nascem em universidades.
Essa promete ser a Universidade da Universidade.
Concordo com Larry Page, nessa "eu queria ter estudado". Há vagas?
Quero duas, uma na Universidade e outra no futuro.
Ah, não poderia me esquecer: ótimo artigo!
PCLOCK - BH - Minas Gerais - 24/11/2010 - 16:14 - Responder no fórum
aparaujo
Embora pareçam bem intencionados, Singularity University não é uma universidade credenciada a dar cursos
de graduação regulares de 4 anos de duração, esta atua mais na complementação de estudos (Wiki). Vejo um
certo exagero e otimismo em excesso, a realidade é bem mais dura. Mas, as universidades tradicionais,
incluindo as brasileiras, podem conduzir o aluno à fronteira do conhecimento com seu cursos de graduação,
mestrado e doutorado.
aparaujo - Vitória - ES - 24/11/2010 - 18:31 - Responder no fórum
Jonas Paulo Negreiros
Fico pensando como ficará difícil responder à essa pergunta:
"Promete ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-lhe e respeitando-lhe até que a morte os separe?”
Jonas Paulo Negreiros - Jundiaí - SP - 24/11/2010 - 19:32 - Responder no fórum
Skyshade
Do jeito que vc fala parece que os caras sao picaretas, o foco deles sao curtos de extensao de 10 meses e workshops de 10 dias. Ja sobre a pesquisa em universidades brasileiras na maioria dos casos nao passa de piada de mau gosto, pois mesmo que algo interessante seja encontrado em 90% dos casos acaba engavetado e nunca se torna algo comercial. Voltando ao assunto do topico fiquei curioso em relacao a questao do turring. Qual sera que e a proposta deles sobre o assunto!?
Skyshade - 24/11/2010 - 19:44 - Responder no fórum
Elis Monteiro
A ideia da SU é ser uma nova universidade - por isso, eles nem pretender ser uma universidade tradicional, de 4 anos e tal.
Estamos vendo uma transformação na forma como se ensina e na forma como se aprende. A proposta da SU é ser a universidade do Século XXI. E pra tanto não precisa durar 4 anos.
Eles buscam a excelência e um certificado deles, acredite, vale mais do que um diploma de universidade.
Elis Monteiro - Rio de Janeiro - 25/11/2010 - 09:41 - Responder no fórum
Jonas Paulo Negreiros
O vertiginoso desenvolvimento científico-tecnológico dará abertura para um mundo
novo. Mas como será esse mundo? Isso é apenas exercício de futurologia.
Quando um robot pensa que está pensando, está pensando mesmo?
Quando um robot, isto é, um escravo cibernético começar a pensar, deixará de ser escravo. Alguém é capaz de prever as consequências reais desse evento?
Jonas Paulo Negreiros - Jundiaí - SP - 25/11/2010 - 19:26 - Responder no fórum
aparaujo
Qualquer um pode especular sobre o futuro, aliás esta é uma tarefa extremamente democrática. Eu mesmo poderia
especular que num futuro próximo não haverão mais universidades de graduação. O aprendizado será instantâneo,
bastando espetar uma pendrive na cabeça. Existirá a pendrive de médico, advogado, físico, músico, etc.
aparaujo - Vitória - ES - 25/11/2010 - 22:45 - Responder no fórum
agressivo
Sensacional, acho muito bom quando temas desse nível é abordado por aqui, espero ansiosamente pelas próximas partes !
agressivo - 28/11/2010 - 23:55 - Responder no fórum
