Na verdade, a resposta para a pergunta do título é mais sombria. Pelo menos na opinião do célebre Chris Anderson, em matéria escrita por ele que estampa a capa da Revista “Wired” publicada este mês. A reportagem tem um título sugestivo e assustador: “The Web is dead.” (“A Web está morta”). Ou seja, o processo não está em curso, mas chegou ao seu ápice. Mesmo que o título pareça sensacionalista e a matéria seja um tanto quanto alarmista, ela traz muitos pontos de reflexão e são estes pontos que eu gostaria de debater aqui – por se tratar de um fórum, não há ambiente mais adequado, certo?
Antes de começarmos, no entanto, vamos rever o currículo de Chris Anderson, o que pode abalizar (ou não) sua opinião nas nossas cabeças. Afinal, quem é este homem que está assassinando a www? Pois Chris não é um qualquer, muito menos um futurólogo de carteirinha, um Nostradamus da tecnologia. Editor-chefe da Wired, Anderson é físico e escritor. É de sua autoria, por exemplo, o famoso “The Long Tail” – em português, “A cauda longa” (Campus/Elsevier), publicado em 2006. Anderson também já trabalhou nas revistas “Sciense”, “Nature” e “The Economist” e esteve recentemente no Brasil para uma palestra. Para quem trabalha no ramo da tecnologia, a opinião dele sempre importou, afinal, ninguém edita a Wired durante nove anos (desde 2001) à toa, certo?
Ok! Definimos que a opinião de Chris Anderson importa. Agora, vamos aos fatos: ele avalia, no texto, que a Web já está morta, mas que a internet continua a ser usada – e muito. Mas como assim? Web e Net não são a mesma coisa? Aí está a pegadinha. O público acostumou-se a considerar Web, Net e Rede como sinônimos. E não são, nunca foram e nunca vão ser. A www (World Wide Web, vulgarmente chamada de Web) nasceu há duas décadas e está, diz Anderson, sendo substituída por serviços como Skype, Netflix, redes peer-to-peer e aplicativos como Twitter, Facebook, etc. Mesmo que usem a Net (internet, a plataforma), tais serviços e aplicativos não necessariamente passam pela www. Ou seja, a tendência é que as pessoas abandonem a navegação pelos websites, via browsers, e passem a usar serviços diretos, rápidos, funcionais, que economizem tempo e que não estejam na Web.
Vamos partir para um exemplo prático: a interface Web do Twitter é um horror e não facilita nem um pouco para aqueles que ainda não entendem o que é o serviço – eu sempre disse isso por aqui. Mas o Twitter não é apenas uma página Web em movimento, com constantes atualizações feitas pelos usuários; ele é um serviço que pode (e deve) ser usado da forma mais simples possível, através de aplicativos instalados nos computadores (como o Tweetdeck, dentre muitos outros) ou celulares, com apps como Echofon, Twitter for iPhone, Twitterific e por aí vai. Os aplicativos tornam o Twitter um serviço muito mais atraente, ainda mais quando tiram partido da função push, de atualização automática (um refresh sem a necessidade de se clicar num botão).
Entendida a diferença entre Net e Web, fica mais fácil entender porque a segunda está se esvaindo. Chris cita o dia-a-dia de uma pessoa antenada com a tecnologia: ela acorda e vai checar o e-mail (no iPad, usando um aplicativo); durante o café da manhã, passeia pelo Twitter e pelo Facebook ou lê um jornal como o “The New York Times” (tudo aplicativo, presente no desktop do iPad); no caminho para o escritório, o geek ouve um podcast no smartphone (o do TED, por exemplo, através de um aplicativo criado pelo TED.com); no trabalho, ele recebe atualizações via RSS, usa o Skype ou o MSN para conversar; no final do dia, vai pra casa, faz o jantar (ou encontra pronto) ouvindo músicas via Pandora; relaxa jogando uns games no XboxLive, e assiste a um programa de TV através do Netflix (serviço de streaming, em formato de aplicativo).
O cara gastou o dia todo na internet – mas sequer passou pela Web, em momento algum. A não ser, claro, que seja um clicador compulsivo que recebe atualizações de amigos no Twitter com conteúdo que envolva links e saia clicando. Parece que estamos falando de uma pessoa de outro planeta, vocês tiveram a impressão de que este perfil é muito diferente do nosso? Pois é. Muita gente age exatamente como o personagem citado por Anderson, principalmente usuários de iPhone, que adquirem muito rapidamente o hábito de usar aplicativos e deixarem de lado o browser.
Todo esse movimento de abandono traz outra discussão que devemos ter mais adiante: de um universo aberto (a Web) estamos passando para um fechado (o dos aplicativos, mesmo quando gratuitos). Chris chama este novo mundo de “plataformas semi-fechadas, pois usam a internet como meio de transporte mas não o browser como display.
A quem culpar? Neste caso específico, a ninguém. O movimento vem acontecendo de forma espontânea, porque os usuários não rejeitam a ideia da Web, mas acabam optando por serviços que funcionem mais rapidamente, e que sejam mais eficientes e simples. Ou seja, a Humanidade está ficando preguiçosa, quer ter tudo na mão (literalmente).
Prosseguindo no nosso estudo, vale entender que havia a expectativa de que a Web fosse o ápice da era digital. Melhor dizendo: que ela seria a melhor tradução da revolução digital.Uma década atrás, diz Chris, os web browsers passaram a substituir as aplicações de software dos PC’s, fazendo com que o sistema operacional passasse a ser um mero coadjuvante, um caminho que leva aos verdadeiros aplicativos – que estavam em sites. Mas com a chegada, na ordem, do Java, do Flash, do Ajax e, mais recentemente, do HTML5, os aplicativos ficam na rede (nas nuvens, an?) e o que era desktop virou Webtop. “Aberto, livre e fora de controle”, diz Chris Anderson.
O primeiro sinal de que o browser poderia estar sendo ameaçado foi a revolução do Push – não à toa, em 2007 a mesma Wired publicou uma reportagem sobre o assunto e sugeriu “dê um beijo e tchau tchau ao seu browser”. Pois o push virou o que temos hoje – aplicativos que cativam o usuário e o usurpam dos browsers.
Ora, será que ele está dizendo que os websites vão acabar? Mas quanta audácia! É claro que não, esta é a resposta. Afinal, nem toda empresa vai querer criar um aplicativo e abrir mão do seu site – Chris brinca dizendo que ainda há telegramas (apesar do e-mail) e cartões-postais (apesar do MMS, da videoconferência, dos aplicativos de Flickr, Facebook, etc).
O futuro (que já chegou) prevê um mundo mais “getting” e menos “browsing” (aqui fica muito difícil fazer uma tradução à altura). E a tal Web 2.0, que prometia sites mais inteligentes, designs arrasadores porém simples, interatividade com o visitante, etc? Pois bem: para Chris, a Web 2.0 nada mais é do que a Web 1.0 que funciona. Mas o conceito de push, que aos poucos vai descendo dos early adopters para os novos usuários, traz um universo de aplicativos, APIs e, claro, as benesses da convergência disso tudo no smartphone, que está sempre em mãos.
Mas por que ele fala em morte? Hoje, o conteúdo de websites (ou seja, o que acessamos via browser, arquivos entregues em formato HTML através do protocolo HTTP, na porta 80) representa menos de ¼ do tráfego da internet. Os serviços mais usados são transferência de arquivos via peer-to-peer, e-mail, VPNs corporativas, a conversa máquina-máquina via APIs, ligações feitas via Skype, games online como World of Warcraft, XboxLive, programas de mensagens instantâneas, streaming de vídeo através de serviços como o Netflix e, agora, aplicativos de redes sociais.
Eu mesma fiz o teste para entender como se dá o meu relacionamento com a Web (e com a Net): todos os aplicativos que uso não requerem browser, a não ser o bom e velho Google. Este, sim, é um camarada e tanto – até quando inventarem um aplicativo de buscas simples e rápido, que eu possa usar no meu iPhone (aliás, já deve existir, vou procurar agora mesmo). E tchau tchau Firefox, Internet Explorer, Opera, Mozilla, etc. Não vou sentir saudades.
E vocês, vão? Vamos continuar esse assunto na próxima coluna?
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Redes sociais
Comentários (24)
cbm
Alguns decretam a morte do sistema operacional dizendo que os navegadores irão substituí-los pois tudo estará nas nuvens. Outros dizem que praticamente não se utilizará mais os navegadores, a web já era! Coisa doida né.
Eu utilizo muito os navegadores e muito pouco os programas que acessam a internet.
cbm - 28/08/2010 - 10:49 - Responder no fórum
xlucas
Onde ele publicou essa declaração??? Em uma pagina/site hospedada na web.
Bem, acho que isso, talvez, responde a própria pergunta feita, não?!
Quanto ao Ipad e tablets em geral, me parecem aparelhos otimos (nunca tive um, mas gostaria), mas a única coisa que me parece incômoda é vc ser obrigado a segura-lo nas maos para visualizar bem a tela e o que a mesma exibe.
Deixe-me tentar explicar melhor.
Em um notebook há o formato "L", em que há uma base que se apoia em uma superficie e outra erguida em angulos proximo de 90º em relação a base. Ou seja vc pode deixa-lo sobre uma superficie e ficar com as mãos livres (exatamente como estou fazendo aqui agora) e visualizar a tela perfeitamente.
Num tablet vc precisa ficar o tempo todo com uma das mãos segurando-o para manter um angulo de visualização confortável. Para uso por períodos curtos, até dá pra ficar segurando-o, mas para usos prolongados, creio que logo causa fadiga.
Imagine ter que trabalhar o dia inteiro usando somente um tablet (que não seja em formato "L")? Ou até mesmo para lazer/futilidades, tipo redes sociais, ver filmes, jogar, etc... duvido que um tablet seja mais(...)
xlucas - 28/08/2010 - 10:56 - Responder no fórum
Emerson_RJ
Eu havia lido esse artigo e li também muitos comentários a respeito dele.
O que me chamou a atenção é que o público alvo do artigo (e da revista Wired) é aquele formado por usuários intermediários e avançados, ou seja, ainda uma pequena parcela das pessoas que utiliza acesso à internet.
Se verificarmos os números, o acesso à internet via www só vem crescendo, pois não devemos esquecer do mundo subdesenvolvido que vem mudando seu perfil drasticamente nos últimos 10 anos. E essa mudança, dentre outras coisas, significa o maior acesso à internet, sendo em grande parte via www.
Eu também li que, se excluirmos o tráfego p2p, a www continua reinando soberana. E todos sabemos por que o p2p usa tanto a rede mundial (até porque a maioria dos filmes e seriados americanos hoje estão em HD, com o dobro de bytes de um filme em sd)
Mas a tendência, a meu ver, não será o fim da www, mas sim o equilíbrio das vias de acesso. A famosa World Wide Web, criada pelo CERN, será mais uma dentre tantos acessos online.
Emerson_RJ - Rio de Janeiro - RJ - 28/08/2010 - 11:35 - Responder no fórum
Caipers
tem aqui abaixo um link (www ) da propria wired
http://www.wired.com/magazine/wp-conten ... chart2.jpg
onde mostra um gráfico de consumo de banda nos ultimos 20 anos e as mudanças no tipo de serviço predominante. Pelo gráfico, o streaming de video é 2x maior que P2P. Onde todos os tipos de serviço tem caido, e somente um grande salto em videos. Mas claro aqui estamos falando quantidade de bytes trafegados, pois um video HD sao muitas vezes maior que uma pagina.
Caipers - Caçador/SC - Curitiba/PR - 28/08/2010 - 16:00 - Responder no fórum
iregados
eu acho isso besteira
é a mesma coisa que falar que a matemática esta morrendo porque surgiu a física...
as coisas são interdependentes...eu uso a web todo dia e nao abro mão dela de maneira alguma
acredito que o poder de aplicativos para ipod e semelhantes é estremamente limitado e restrito..
o poder de um browser vai muito alem...o poder da web como um todo vai muito alem..não tem limites...com a padronização que vem se encaminhando com o HTML5 por exemplo vai tornar esse poder vai ser ainda maior...enquanto apps de gadgets simplesmente nao tem para onde ir...são aquilo e pronto (posso estar muito enganado neste ponto)..
ele pode até estar certo...sendo quem é acredito que intenda muito mais do assunto do que eu...mas eu espero que ele esteja errado!
muito legal a coluna...parabens!
iregados - 28/08/2010 - 17:25 - Responder no fórum
anderson_mcsouza
Da mesma forma que muitos tem um carro para trabalhar, outro para passear com a família nos finais de semana e talvez até um terceiro para o off-road, também é comum vermos pessoas que tem desktop, notebook, smartphones e talvez até um tabbled.
Acredito que as pessoas estão aprendendo a utilizar o que cada aparelho tem de melhor e, portanto, a tendência é cada um desses aparelhos ocupar o seu espaço no dia a dia das pessoas, todos lado a lado.
anderson_mcsouza - 28/08/2010 - 19:22 - Responder no fórum
Georenato
Eu penso contrário em relação aos aplicativos. Acho que eles facilitam à vida caso você alguns poucos. Agora imagine ter aplicativo para tudo que se pode usar em um browser? Tornaria, na verdade, o uso da net mais enfadonho. Eu acho que estes aplicativos são complementares a WEB e não a substituem. E em relação aos aplicativos da Apple é um mundo muito restrito e que sobrevive muito das vezes por ações de marketing gigantescas.
Abraços.
Georenato - 28/08/2010 - 21:28 - Responder no fórum
Zakk Wylde
Idéia ridicula. Perdi 5 minutos da minha vida lendo isso. O autor dessa ideia obviamente queria aparecer..
Zakk Wylde - 29/08/2010 - 11:10 - Responder no fórum
