Já virou um problema para muita gente…agora, principalmente para o Facebook, este gigante digital que já passou dos 500 milhões de usuários: os falecidos da vida real andam assombrando os programadores, os donos do serviço e, claro, os familiares e amigos do mundo físico.
Até agora, a única forma de uma rede social saber do falecimento de alguém era através do envio insistente de e-mails da família. Mesmo assim, foram incontáveis os casos de pessoas que fingiram se matar (na vida virtual) simulando uma morte – no mundo real. Ou seja, como confiar numa notificação, que documentos exigir, como confirmar um falecimento, ainda mais quando acontece em países ermos como…o Brasil?
Eu mesma presenciei o caso de uma pessoa muito próxima que, cansada de ser perseguida por um ex-namorado, decidiu cometer suicídio virtual. Acabou que este mesmo ex espalhou a notícia pelos quatro cantos do ciberespaço e a pobre andou sumida por um bom tempo, sem saber o que fazer até que (ai meu Deus!) apareceu uma mensagem dela na caixa postal dos amigos mais íntimos afirmando que preferia continuar “morta” para o ex-namorado, mas que na “vida real” ainda estava Vivinha da Silva. Aliás, ontem mesmo cruzei com ela nos corredores do Facebook.
Meu relacionamento com a falecida nunca mais foi o mesmo porque, juro, parece piada (escrevi sobre o assunto alguns anos atrás aqui no Fórum), mas chorei de verdade pela “morte” da amiga. Escrevi posts emocionados no meu blog, teci longos e-mails para amigos em comum dando a notícia, chorando em conjunto, escrevendo poesias em homenagem. Até que um dia um amigo sugeriu que talvez, hum, não sabemos bem, mas alguém com estilo muito parecido com o dela andava escrevendo nos blogs sobre a morte dela mesma. E acabamos descobrindo a farsa, que tinha lá seus motivos – livrar a pseudo-ex-falecida do ex-perseguidor. Mas os amigos nunca mais quiseram saber. Eu mesma fiquei arrasada, mesmo com a ressurreição de alguém que julguei morta por um bom tempo. Foi stress demais, tristeza demais. E depois disso a vida dela ficou meio confusa, e fiquei com medo de outros suicídios, reais e virtuais.
Enfim, esse caso me veio à lembrança porque acabei de ler uma reportagem muito interessante no jornal “The New York Times” sobre o problema que os mortos – de verdade – já representam para as redes sociais. E o Facebook está penando (ops!) um bocado com o enigma: como ser capaz de identificar uma morte sem que a família precise passar por mais esse drama de ser obrigada a informar e provar que o morto morreu.
Ano passado, os amigos do jovem Dan Broughton, que faleceu tragicamente depois de uma batida com um trem da Amtrak, perto de Detroit, EUA, criaram uma comunidade em homenagem ao falecido no Facebook. Este (o Facebook) não soube bem como tratar o caso. Afinal, a homenagem era uma coisa legal? Mas se a família não gostasse? Uma coisa é tirar o perfil do morto da rede, mas como tirar a rede dele?
Por mais que pareça homenagem, o grupo, ainda existente, é muito estranho – e é claro que passei por lá para conferir. Confesso que decidi escrever esta coluna não só por conta da matéria no New York Times – dia desses, estava passeando pelo LinkedIn quando me deparei com o perfil de um amigo que morreu há uns cinco anos! Fiquei congelada! E me peguei contabilizando o tempo de vida do LinkedIn…vai que de repente esse também não foi o caso de uma morte apenas virtual? Infelizmente, não. Esse amigo partiu desta para melhor há muitos anos, mas a família não tinha a senha de nenhuma rede, e ele segue imortal, para sempre. Quer dizer, enquanto tais redes existirem.
Outro amigo falecido, o nosso amado e saudoso Marcelo Nóbrega, que foi colunista do Fórum PCs e meu amigo pessoal, continua vivo não só nos nossos corações como também no LinkedIn e no Facebook. A esposa já fez de tudo para tirar o perfil dele do ar, mas nada…afinal, o que é preciso fazer para que as pessoas não levem o susto que eu tomei quando me deparei com o meu amigo falecido há cinco anos no LinkedIn? Porque, sinceramente, o Nóbrega pra mim ainda está vivinho e não me assustei ao me encontrar com ela no Facebook. Mas no caso do outro amigo, cheguei a conjecturar, ainda mais diante do histórico maluco da amiga-morta-que-não-morreu.
E foi exatamente quando me encontrei com esses dois amigos que li a reportagem do “New York Times”, que começava com a história de Courtney Purvin, que um dia, passeando pelo Facebook, recebeu uma daquelas indefectíveis mensagens “fulano está há muito tempo sem atualizar seu perfil. Mande um alô pra ele!”
Só que o amigo, muito querido para ela, tinha partido para outro local indefinido – ok, ok, tinha batido as botas. Courtney sofreu tudo de novo. O amigo falecido tinha tocado piano no casamento dela, quatro anos atrás. Mas estava morto. E o Facebook não sabia. Disse ela que ficou chocada e que pareceu, naquele momento, “que o amigo tinha voltado da morte para assombrá-la”.
Ok, Courtney exagerou (deve ser por causa do nome). Mas é muito comum os mortos frequentarem durante anos as redes sociais até que alguém tome alguma providência. E que atire a primeira pedra quem não corre no Orkut quando alguém morre de forma grotesca e os jornais destacam que “os amigos enviam mensagens de condolências no Orkut”…
A questão é que até agora o Facebook vinha tratando seus usuários como “jovens cheios de vida e energia” e pensar em morte era, no mínimo, bizarro. Mas é preciso. Por isso, a empresa resolveu dotar seus softwares-robôs de inteligência “sentimental” a ponto de capturar palavras cruciais que remetem à passagem desta para melhor, respeitando-se culturas, etnias e religiões.
Agora, o Facebook tem registrado cada vez mais a entrada de usuários mais velhos. Inclusive com mais de 65 anos. Só em maio de 2009, 6,5 milhões de pessoas acima dos 65 anos entraram na rede social mais usada do planeta. E mesmo com a expectativa de vida cada vez maior no planeta, é preciso buscar uma solução para os mortos. Para que estes possam descansar em paz, longe da internet e mais perto de Deus. E principalmente para que seus parentes possam ficar tranquilos de que seus santos nomes não estarão sendo usados em vão no ciberespaço.
A questão é que, tirando países com índices de violência absurdos como Colômbia, Brasil, dentre outros, na maior parte dos países é a partir dos 65 anos que as mortes se concentram em maior número. E agora, o que fazer para descobrir quando as pessoas morrem, num universo absurdo de 500 milhões de frequentadores?
Eis um desafio. Mas ao mesmo tempo o Facebook pode prestar um grande serviço à humanidade, ainda mais num tempo em que a morte fica cada vez mais banal, assim como a vida. Que a passagem de cada um seja celebrada, mas eternizada, só a lembrança, Não o perfil…
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Redes sociais
Comentários (17) Visitas (2791)
mmps
Uma solução simples seria estabelecer um prazo máximo para que alguém deixe de logar antes que a conta/perfil seja excluído.
Ex.: Alguém que deixa de logar por um ano, ou morreu ou não tem mais interesse no serviço, podendo seu login ser excluído.
Acredito ser simples e prático, claro que o prazo deve ser razoável e amplamente divulgado.
mmps - 28/07/2010 - 01:07 - Responder no fórum
fabiojspereira
Creio que não daria certo dessa forma...
Eu acho que o ideal seria fazer tipo uma verificação da conta de tempos em tempos..
Se a pessoa no caso não fizer tal verificação um determinado número de vezes aí sim a conta poderá ser excluída.
Agora se a pessoa for filho de famoso é fácil, vai aparecer no JN.
Off : Não pude deixar de citar o caso do playboy, digo filho da Global.
Todo mundo só pensa em Fu$%^# o tal motorista...Não sei porque...
Será que se fosse um qualquer teria toda essa atenção no caso ?
Eu acho que um túnel foi feito para veículos motores e não para ficar passeando de skate às 0200... É muita falta do que fazer...
fabiojspereira - Brasil - 28/07/2010 - 09:13 - Responder no fórum
Karlott2
poderia ser assim, mas, com alguma redundancia, tipo, o email todo mundo olha, claro. Então depois de 1 ano sem logar, deveria ser enviado um aviso com prazo de 30 dias, e depois um segundo aviso com mais 30 dias de prazo. Se depois de tudo nao tiver logado, passa para inatividade por uns 6 meses, tipo, tira o perfil do ar, sem deletar nada, somente depois disso exclui-se tudo.
Algo assim evitaria erros, das pessoas perderem tudo que tem na rede, e tambem solucionaria o problema dos mortos em 2 anos no maximo, o que é um prazo razoavel, considerando os problemas que temos hoje, 2 anos é justo.
Edit: Fabio, concordo com voce, ali todos estavam errados, 02:00 ficar andando de skate no tunel, na pista de carro? nao tem praça, pista de skate, etc?
O cara do carro, se estivesse no pega esta errado tambem, só ele pra explicar a situação, pois, mesmo batendo pega da pra ver um pedestre no meio da rua, salvo se o skatista fez uma manobra e "pulou" na frente, ja atropelei assim, a mulher pulou na frente da moto, sorte que eu estava tao devagar que nem eu e nem ela machucamos, nem cai.
E a policia errada por cobrar propina e não fazer seu trabalho justamente e(...)
Karlott2 - Belo Horizonte - M.G. - Br - 28/07/2010 - 09:27 - Responder no fórum
pedro_oliveto
A seilá... eu acho que mesmo morto eu gostaria de continuar nas minhas redes sociais... vai que de lá onde eu estou eu consigo ler... seria legal eles botarem tipo uma cruz.. ou algo parecido... para homenagear...
mas não gostaria de ser apagado não... quando tenho amigos que já partiram, eu gosto de ir no perfil, de vez em quando, ver as fotos... ler o perfil e tal... é uma forma de matar a saudade...
pedro_oliveto - 28/07/2010 - 11:24 - Responder no fórum
ze o cara
Acontece comigo frequentemente o que a Elis citou que ocorreu com ela.
Meu ex-patrão que antes de patrão era meu amigo, faleceu a pouco mais de um ano.
Como ninguém da família sabe a senha, continua lá.
Vira e mexe quando logo dou de cara com ele lá (o perfil, claro). Aí bate aquela tristeza.
Muito chato isso.
ze o cara - 28/07/2010 - 11:53 - Responder no fórum
HighlanderBR
Eu acho que essa verificação de tempos em tempos mais adequada do que simplesmente apagar o perfil depois de um tempo inativo.
Um ex um pouco fora do assunto, mas que exemplifica bem, é que eu tinha uma conta no jogo trackmania, mas não logava a anos. Essa semana descobri que ele é gratuito no Steam e baixei ele pra relembrar. Na hora do perfil, só pedi pra recuperar a senha e reloguei com a velha conta, que ainda me falou que por eu não ter logado a 600 e tantos dias, estava ganhando X pontos pra recomeçar ou algo assim.
No caso, apesar do tempo que passei sem jogar, se recebesse 1 email deles a cada ano pedindo pra manter a conta ativa, provavelmente teria feito isso.
HighlanderBR - 29/07/2010 - 04:29 - Responder no fórum
paulomello2006
Desculpem a sinceridade, mas não me contive:
Que assunto mais sem graça, prefiro matérias que tratam de coisas mais úteis, como novos celulares, tecnologias, softwares para telefonia movel...enfim o que costumo ver da autoria de Elis Monteiro, mas esta matéria em especial, eu achei muito sem graça!
Aliás não é so sites de relacionamento que tem esse "problema", servidores de email como Gmail e Hotmail também tem.
Simples resolver isso, X meses sem acessar a conta, e a conta é simplesmente apagada!
paulomello2006 - 29/07/2010 - 15:56 - Responder no fórum
Paulo Couto
Não é sem graça não, é um problema muito sério. Eu tenho vários amigos falecidos que continuam "vivos" na internet, com blogs, perfil em redes sociais, etc. E eles estão recebendo mensagens, um deles tinha no orkut uma mensagem de uma amiga "e ai, fulano? tá sumido..." a incauta não sabia do falecimento já que o proprio não teve a chance de avisar...
E alguns desses amigos tiveram seus emails capturados ainda em vida, e eu continuo a receber emails como se fossem deles (spams). Tenho um colega que perdeu o filho, que por sua vez tinha páginas em vários sites de rede social que continuam ativas. esse colega não sabe como apagar, e fica recebendo todo tipo de mensagens sem saber o que fazer.
Certa vez li um comentário sobre "residuo digital" de falecidos, alguns duram anos até serem limpos.
Paulo Couto - Rio de Janeiro - 29/07/2010 - 16:08 - Responder no fórum
