A corrida tecnológica mundial, como bem sabemos, é uma batalha sangrenta e está em pleno fragor. Mas não é uma luta em que se entre assim de repente, num arroubo instantâneo, quando se percebe que estamos ficando para trás, ou melhor, que já ficamos muito longe para trás, há muitos e muitos anos.
É muito difícil para um país em desenvolvimento mergulhar na disputa internacional por espaços no campo da tecnologia de ponta. Alguns países têm conseguido ― China, Índia, Irlanda, Cingapura e Polônia, entre outros. A questão chave é pensar grande e, sobretudo, a longo prazo. E a ênfase a ser dada é à educação. Precisamos de um consistente programa educacional com foco em tecnologia de primeira linha, enviando nossos melhores cérebros para os grandes centros de ensino e pesquisa no exterior, e depois oferecendo a esses estudantes graduados e pós-graduados incentivos para que retornem ao Brasil e aqui se estabeleçam, de modo a aplicar seus conhecimentos no desenvolvimento do nosso país.
É bem verdade que, nos últimos anos, o governo brasileiro vem prestando bastante atenção a essa problemática, aliás, com um empenho que poucas vezes se viu antes em nossa história. Contudo, mesmo assim, ainda estamos atrasados demais. Pulamos para dentro do campo de batalha num momento em que os gigantes do mercado industrial hitech já dão as ordens no esquema. E, pior ainda, entramos com muito menos recursos do que os líderes. Grana, sim, é isso que nos falta. Muita grana.
Falta-nos também uma visão política a longo prazo e independente de partidos. Uma política de estado e não de governo. Não adianta nada estabelecer-se um plano com alcance de 20 ou 50 anos para vê-lo sucateado no mandato seguinte, caso a oposição assuma o poder. É preciso também que nossos líderes parem um pouco de pensar em seus próprios interesses e passem a se empenhar genuinamente no desenvolvimento do país.
Nosso problema educacional em tecnologia, porém, não se resume à preparação técnica de nossos jovens de modo a produzirem inventos e patentes de real expressão no cenário mundial. As dificuldades surgem antes, bem antes, quando esses jovens são crianças ainda inseridas (se tiverem tal sorte) em suas células familiares, no entanto tão carentes de fundamentos sólidos de caráter e de cultura. Quanto potencial humano possuímos em nossas terras e que é desperdiçado em situações de desnutrição, de professores mal pagos, de desagregação familiar, de maus exemplos dados pelos pais e pelos dirigentes da nação, de escolas caindo aos pedaços e de alta evasão escolar por motivo de doença ou mesmo em casos em que os próprios pais retiram seus filhos da escola para trabalhar em tarefas pesadas, aumentando a pífia renda familiar.
No entanto, às vezes, para se ter uma noção mais ampla de um problema muito grandioso, é preciso dar alguns passos para trás de modo que nossa visão abarque um panorama mais aberto. Se a educação planejada, com a devida antecedência, foi a arma que atendeu aos interesses dos mais poderosos que desejavam se manter na vanguarda tecnológica, é essa mesma educação o instrumento utilizado pelos realmente poderosos para achatar mental e socialmente o resto da população, independentemente do país em questão.
Para ilustrar com clareza nossa situação de subserviência e a perspectiva desesperançosa da evolução educacional mundial, e com uma verve quase inigualável, evoco aqui a apresentação “The American Dream”, do americano George Carlin, ator, humorista, crítico social e autor falecido em junho de 2008 aos 71 anos de idade. Carlin recebeu cinco prêmios Grammy e era famoso por seu humor ácido, com que tratava de uma série de situações consideradas tabu pela sociedade americana.
A dica dessa apresentação de Carlin me foi enviada por Jorge Vismara, um velho amigo que mora na Califórnia e que tem uma ampla visão cultural que abrange quase o mundo inteiro. O vídeo está no Youtube [link]. Está também no Facebook, aqui.
Carlin, como sempre, supremamente desbocado, já começa sua palestra de desabafo soltando os cachorros, declarando que o sistema educacional como um todo é uma boa droga e que, por uma série de razões, jamais será consertado. Diz o palestrante que tal sistema não irá para a frente e, na verdade, devemos até nos contentar com o que já temos. A razão para isso? É simples: os donos do sistema não querem que ele mude para melhor. Mas Carlin estáse referindo aos verdadeiros donos, os que controlam os grandes e riquíssimos interesses empresariais, as poucas pessoas que tomam todas as decisões verdadeiramente importantes no cenário mundial dos negócios.
― Não estou me referindo aos políticos ― esclarece Carlin. ― Os políticos só estão colocados no cenário para nos dar a impressão de que realmente temos liberdade de escolha. Mas nós não temos. Não temos escolha alguma. Temos apenas “proprietários”, que são os verdadeiros donos de mim, de você, de tudo. São os donos de todas as terras importantes, são quem controla as corporações, são quem tem na mão os governos e, em cada país, o congresso, o senado, os governos estaduais, as câmaras municipais e as prefeituras. Eles têm juízes de direito em seu bolso. Eles são os donos ou têm forte influência sobre todas as grandes empresas de mídia, ou seja, dominam o fluxo e o teor de todas as informações e notícias mais significativas que nós do povo ouvimos, vemos e, mal ou bem, digerimos.
Segundo Carlin, esses poderosos gastam bilhões de dólares anualmente fazendo lobby junto aos políticos para obter o que quiserem. E nós sabemos o que eles almejam: eles querem mais para eles mesmos e menos para o resto das pessoas.
― Mas eu lhes digo o que certamente os poderosos não querem ― prossegue. ― Eles não desejam uma população composta de pessoas dotadas de pensamento crítico. Pessoas bem informadas e bem educadas, não, isso não os ajuda em nada. Aliás, muito pelo contrário. Cidadãos despertos iriam atrapalhar seus planos. É algo contra seus interesses. Os grandes não querem pessoas suficientemente esclarecidas para sentar juntas na cozinha e refletir sobre o quanto vêm sendo ferradas por um sistema que os “jogou para fora do barco” 35 anos atrás.
Trabalhadores obedientes, é disso de que nossos donos precisam. De pessoas espertas apenas o suficiente para movimentar as máquinas e tomar conta da papelada, e suficientemente burras para aceitar passivamente empregos incrivelmente tediosos, com baixos salários, benefícios reduzidos, longas jornadas de trabalho e cortes de horas extra. Cargos oferecidos por firmas ávidas por explorar seus funcionários. Os tubarões precisam de pessoas dóceis e incapazes de uma reação organizada e bem orquestrada, pobres criaturas necessitadas que veem sua aposentadoria escolher no exato instante em que cumprem sua missão de trabalhadores e vão para casa supostamente descansar e curtir em paz o final de seus dias.
― E agora eles estão de olho nessa nossa grana do seguro social ― adverte Carlin. ― Eles querem esse dinheiro de volta de modo que possam dá-lo a seus amigos criminosos em Wall Street e em outras bolsas de valores. E, querem saber de uma coisa? Eles vão conseguir isso. Eles vão conseguir o que quiserem de você, de nós, pois eles são os donos de tudo. Eles fazem parte de um clube seleto, do qual certamente eu e vocês não fazemos parte. É esse mesmo clube que costuma martelar em nossa cabeça o dia inteiro quando nos dizem no quê devemos acreditar, no quê pensar e o quê comprar. Jogamos um jogo de cartas marcadas. E ninguém parece notar que isso está acontecendo. Ninguém parece se importar.
E a história continua indo em frente do jeitinho que sempre foi. Gente honesta e trabalhadora, do todas as cores e crenças, pessoas em geral de médio ou baixo poder aquisitivo, que continuam elegendo os políticos corruptos e ricos que, por trás dos panos, não passam de marionetes que dão respaldo aos grandes donos da cocada preta, em troca de umas poucas dezenas de milhões de dólares depositados em suas contas secretas em paraísos fiscais no exterior.
― Os grandes poderosos não dão a mínima para nós. Eles não se importam conosco. Em nada! ― ensina-nos George Carlin nesse vídeo que está se tornando viral na rede. ― Os donos do mundo contam com essa indolência nossa. Ninguém vê, ninguém se importa.
Olhando para a pobre massa anestesiada, o interessa a eles é ver a novelinha à noite, assistir ao jornal em rede nacional, acompanhar cuidadosamente os seriados na TV a cabo, possuir o carro novo mais estalando de lindo e consumir em alto estilo, quanto mais melhor. Se puderem estar escravizados a drogas e outros vícios quaisquer, melhor ainda.
Nossos donos continuarão sempre fazendo o máximo para nos manter no status de ignorantes mansos e bonzinhos, inconscientes de que seguramos nas costas todo um sistema que, em retorno, nos oprime e nos explora.
― Os donos do sistema sabem a verdade ― conclui Carlin, referindo-se ao sonho americano, que acaba sendo o mesmo sonho de quase todas as nações do mundo Ocidental. ― E a verdade sobre o sonho americano é que precisamos estar dormindo para acreditar nele.
Sim, é preciso estar dormindo para fazer parte desse sonho.
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Comentários (26)
Zennheiser
C@T, porque seria ruim pra alguém que tem poder de consumo razoável, que pode assistir sua novelinha, seu jornal e ter seu carrinho estalando de lindo descobrir que é controlado por pessoas que tem muito mais do que ele? Acho que o ruim é ter dinheiro pra comprar o mundo todo, e com isso, preocupações com todo o mundo pra manter esse mesmo status, ao invés de poder como o consumidor "controlado" e "alienado" ser feliz no seu "mundinho".
Aliás, será que a frase "Nas coisas simples da vida é que encontramos a felicidade" e frases afins foram inventadas por gente dessa estirpe dominadora pra satisfazer os cidadãos comuns?
Zennheiser - 24/08/2010 - 14:45 - Responder no fórum
C@T
Excelentes questionamentos os seus, meu caro Zennheiser.
Abração do
- c.a.t.
C@T - Niterói, RJ, Brasil - 25/08/2010 - 02:08 - Responder no fórum
marcioag
Nada garante que "pensar grande" em educação, implique em educadores lúcidos o bastante para, com suas tesouras, serem capazes de cortar as próprias cordinhas e a de seus educandos.
Será, então, a internet capaz de "resistir" a não tornar-se ela mesma mais uma marionete?
marcioag - 25/08/2010 - 15:21 - Responder no fórum
khlauss
Muito interessante mas mais do mesmo para quem é da área das humanas, psicologia meu caso.
Quanto ao Brasil, acho que existe um senso de inferioridade coletivo por aqui.
"Alienação" faz parte do sujeito, independente da região, religião e qualquer outra coisa.
Aliás, eu sou crítico até mesmo a repeito do conceito de alienação e todo peso negativo dado ao conceito. Tudo é visto como uma questão ampla, mas cada sujeito é um. Único. De forma geral, nos conceitos apresentados, TODOS somos alienados, em algum ou outro ponto. O próprio cientista social sabe de sua alienação, porém esse tipo de texto "vende".
Enfim. Uns vivem sabendo que são manipulados, e outros sem saber...embora tenha toda essa critica, os alienados da alienação potencialmente tem uma coisa a menos pra se preocupar.
khlauss - 26/08/2010 - 11:27 - Responder no fórum
Pareja
Concordo totalmente com George Carlin.
Tenho a noção de que coisas simples, que não se compram tem importância inigualável na nossa vida, mas confortos e comodidades também fazem parte.
Mas também sei que se os "Donos do Poder" mundiais assim quisessem não haveria mais fome no mundo, criminalidade, desemprego e outras muitas mazelas, nem mesmo este outro também gravíssimo problema no clima do planeta. Creio que se o mundo não fosse melhor 100%, pelo menos a maioria dos maiores problemas munidais estariam quase totalmente solucionados.
Mas eu mesmo aceito sem lutar contra tais poderosos como a maioria
Uma vez ouvi uma pessoa dizer que somos ovelinhas de presépio, ele mesmo se incluía nesta designação.
Pareja - 26/08/2010 - 16:12 - Responder no fórum
rorschachbr
Excelente artigo CAT. Não esperava uma abordagem tão realista. A TV tem grande importância na alienação:
http://planetaprisao.wordpress.com/2010 ... co-social/
Pelo que Carlin afirma, pela quadrilha que está no poder e praticamente reeleita, sabemos que a situação vai piorar muito aqui no BR.
rorschachbr - 26/08/2010 - 17:10 - Responder no fórum
H. inhabilis
O texto tem valor por chamar a reflexão sobre este tema. Mas a conclusão é falha. Evidentemente existem grupos que tem entre outros o propósito de controlar o nosso destino. Podemos agir a maior parte do tempo como marionetes, mas não somos marionetes. Do ponto de vista individual, a sobrevivência requer concessões, em relação a tudo e a todos.
As pessoas tem ciência de que a liberdade para decidir é extremamente limitada por diversos fatores, circunstânciais, financeiros, culturais, políticos... Contudo, por mais alienação que se possa imaginar, ainda persiste a divergência de pensamento, em todos os níveis, em oposição ao absoluto.
E por mais viciado e opressor que seja, o sistema é tão falho quanto as pessoas que pretensamente pensam controlá-lo. O destino depende mais do acaso que de qualquer outra coisa e o otimismo resiste no fato de que ninguém está no comando.
H. inhabilis - 27/08/2010 - 00:23 - Responder no fórum
Kevorkian
Quisera ser verdade toda a competência de definir futuro como é exposto.
Toda essa conversa é para acalentarmos a idéia de que há alguém, mesmo que a contra-vontade, que lidera. Quando na verdade não existe nada disso.
Estamos soltos, perdidos no meio do nada. Ninguém comanda nada. Qualquer catástrofe climática está ai para provar que todo o discurso de uma força poderosa controlando todos os demais, se dissipa em minutos de observação.
O que nós sentimos são apenas reflexos, que dão a impressão de controle, mas nada disso é verdade. só estamos tendo sorte de não nos matarmos por qualquer coisa.
Kevorkian - 27/08/2010 - 13:02 - Responder no fórum







